Muitos amigos meus me acusam de pensar como um senhor mais ou menos respeitável de 83 anos, apesar de estar perto de completar 34. Isso acontece por causa de meus hábitos e gostos, minha incapacidade de ficar animado em ocasiões especiais como Natal ou Carnaval, por eu não ser um poço de bom humor.

E por eu ainda ser um cara da esquerda acreditando que o papel da esquerda deveria ser pensar em questões relacionadas ao proletariado e em uma alternativa viável ao capitalismo global. Isso quer dizer que, embora muito importantes, as pautas identitárias e particulares são apenas isto: pautas particulares muito importantes.

Nas últimas semanas vimos quatro idiotices seguidas: Júlio Cocielo sendo racista com Mbappé; Jacaré Banguela sendo racista com Jaden Smith; James Gunn demitido da Marvel/Disney por tuítes fazendo piada com pedofilia e coisas do tipo; Netflix lançando um filme e sendo acusada de gordofobia.

Os quatro casos são escrotos mas em níveis bastante diferentes. Pedofilia nunca é piada, é crime e fim de papo. Racismo também é crime, fim. Embora eu tenha certeza que Mbappé e Jaden Smith não precisem de nenhum cientista político formado pelo Facebook para defendê-los, é sempre bom ver racista se fodendo. Acho que gera um efeito pedagógico bacana.

Já o lance da Netflix me fez levantar as orelhas. O lance aconteceu porque a empresa está lançando um filme daqueles cuja premissa me faz ficar de saco cheio de tanto tédio. É mais ou menos assim: “menina do colegial obesa sofre bullying, emagrece, fica linda/gostosa, e decide se vingar de quem a humilhava”. Em algum momento do “filme” deve rolar algum tipo de lição de moral sobre tudo isso e o filme acaba. No meio disso tudo, quem o assistir verá atuações sofríveis, trilha sonora esquecível e fotografia/figurino/enquadramento padrãozinho para agradar uma meia dúzia de adolescente descerebrado.  Daí a esquerda pirou e fez o que tem feito melhor nos últimos tempos: foi para o Twitter reclamar e acusar a empresa de gordofobia.

Eu não sou daqueles que acha que no passado era melhor. Aliás, acredito que hoje a esquerda tem até que alguns avanços se comparada com aquela geração dos anos 60/70 que acreditava que podia peitar o capitalismo via guerrilha armada. Cuba está nos mostrando que não. A União Soviética não existe mais para não nos provar nada. Mas pelo pouco que sei sobre o assunto, percebo que o ideal da esquerda no passado era outro. Era ser inteligente pra CARALHO. Os ícones da esquerda nos anos 60/70 eram Sartre e Simone de Beauvoir. Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Henry Miller e Jack Kerouac. Isso na academia. No dia a dia brasileiro Chico Buarque era música popular, de rádio e festivais. Se formos pra gringa, tem Bob Dylan e Bruce Springsteen.

Não quero fazer um comparativo tolo entre passado e presente, mas sim dizer que por mais que eu ou você gostemos do Greg News, ele é só um programa de humor feito por alguém que as vezes nem engraçado é. Por mais lacre ou views no Youtube que a Carol Conka tenha, ou por mais representativo que seja Anita rebolando com celulite na bunda, é só isso: lacre, views e celulite.

Também não quero afirmar que não tinha gente besta na esquerda nos anos passados. Tinha um monte, como ainda tem, principalmente nas universidades. O ponto é que a esquerda parecia ter como ideal encontrar algo para dizer, e algo inteligente demais. Coisas que quando ditas faziam as pessoas ao redor pensar. Não por acaso Dylan ganhou o Nobel da literatura sem nunca escrever um livro.

Hoje… hoje sei lá.

É só lacre, discussão besta nas áreas de comentários. E gente reclamando que a Netflix, a coroa do capitalismo moderno, comete gordofobia, como se existisse a mais remota possibilidade dos executivos da companhia se importarem com isso. Bom, talvez seja eu quem precise dizer a esquerda do lacre que não, não se importam. A Netflix, como qualquer outra empresa, está cagando para tudo isso. Ela é uma empresa, e como qualquer empresa, busca lucro, e fim. Claro que haverá quem pense: “mas então nós pressionamos a Netflix a ser mais representativa, mais consciente, falando mal de suas produções, porque aí ela vai temer perder seus assinantes”. E não está errado pensar assim, porque é mais ou menos dessa forma que as coisas funcionam. No CAPITALISMO.

Enquanto a hashtag Netflix gordofóbica entra nas mais comentadas, o operário da esteira de produção continua sem saber o que é mais valia, sem saber porque a contribuição sindical é importante, sem nem sequer imaginar como se organizar politicamente para através de movimentos como a greve, possa pleitear um salário que o permita comprar gás de cozinha e carne moída de segunda. Talvez você que fica colecionando curtidas com lacração no Twitter também não saiba.   ¯\_(ツ)_/¯

E no fim, se não curtiu, é só não assistir a parada. Aliás, é essa merda toda de querer fazer o comentário mais lacrador, mais problematizador, que faz o marketing dessas paradas escrotas, porque o roteiro do filme é sim, escroto. Mas veja só, eu só fiquei sabendo dele por causa do hype feito pela esquerda. Se caiu na minha timeline, deve cair rapidinho na timeline do imbecil do Danilo Gentili, que só pra incomodar, vai falar bem do filme para seus milhões de seguidores, e ai todas as críticas super politizadas dessa esquerda bobinha vai pro ralo, igual mijo no banho.

Enquanto isso, continuamos nós todos da esquerda, sem dar uma resposta coerente e eficiente para substituir o capitalismo global, que sabemos eu e você, tem problemas que vão desde a escravidão moderna até a morte de tartarugas marinhas por causa do lixo descartado nos oceanos.

Meu conselho é: fique no computador, viva na Santa Trindade do Século 21 (Facebook, Twitter e Instagram) mas para de querer parecer engajado, desconstruído, ou qualquer outro adjetivo pós-moderno de sua escolha, e vá estudar. Chega de “mudar o mundo do sofá da sala, postar o Insta e se a maconha for da boa que se foda a ideologia”.

Se me permite um conselho, comece pelo livro quatro do Capital, que é o mais difícil, e talvez por isso, o menos lido. Afinal, como superar o capitalismo, alcançar o comunismo, sem a exploração do operário? Como a acumulação primitiva explica a manutenção ou substituição do maquinário do dono dos meios de produção? Eu sei que essas respostas talvez já foram dadas pelos marxianos fantásticos do século 20, mas sei lá, não custa ir atrás do que já foi pensado, nem que seja para contestar, ensinar para outras pessoas, ou aplicar.

E deixa essa porra de lacre pra lá que isso é chato demais e só te faz ganhar seguidor e curtida. E de verdade, ninguém ta nem ai pra isso.

Participe da conversa! 10 comentários

  1. Tá. Acho que é o melhor texto que li nos últimos dias. Não vou nem acrescentar nada pra não estragar. Fiquei com a impressão de que você é eleitor do Ciro Gomes, que pensa esquerda como o pessoal dele. Algo no seu texto me fez pensar assim.

    Curtido por 1 pessoa

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    • Mais ou menos… até me simpatizo pelo Ciro, mas prefiro uma esquerda mais na linha do finado Brizola. Hoje em dia não sei bem com quem me identifico de verdade.
      Mas fico feliz pelo elogio!

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  2. Fantástico! Disse tudo, nem precisa de resenha. Parabéns!

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  3. Esses livros do Marx são i
    Ótimas obras de ficção. Pura fantasia. Teoria linda mas na prática nunca aconteceu.

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    • Esse comentário será aprovado para que outras pessoas possam rir de vc como eu estou rindo.
      😉

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      • Eu também me divirto e fico rindo muito dos seus textos . Muito boa sua ficção científica

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      • então volte mais vezes.
        qdo eu apresento o mídia kit do Cinesofia para fechar parcerias e ganhar uma grana, os views contabilizados não distinguem quem vem nos ofender de quem vem debater.
        durma tranquilo sabendo que você está me enriquecendo, portanto.

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      • Olha gosto muito de seus textos. Mas fiz essa brincadeira por que ainda acho que o ser humano precisa evoluir muito pra chegar nesse padrão de evolução. Pensar no coletivo antes do individual. Por que pra mim a grande massa ainda é individualista. Por isso que parece ficção.

        Curtido por 1 pessoa

      • Me desculpe. O confundi com um rapaz que volta e meia vem me xingar aqui…
        Mals mesmo

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