Um dos filósofos que coloquei como prioridade, agora que conclui minha dissertação de mestrado, é o sul-coreano Byung Chul-Han, além de Marcos Nobre, filósofo, professor do meu orientador, e especialista em Teoria Crítica.

Nobre acaba de lançar Como nasce o novo, livro onde parte de uma análise minuciosa da introdução de Fenomenologia do Espírito de Hegel e acaba investigando como as subjetividades internalizam as experiências vividas em uma sociedade capitalista. Não entendeu nada? Explico: do nascimento a fase adulta, passamos pela construção de nossa personalidade, de nossa identidade, com todas as contradições e processos decorrentes disto. A pergunta que Nobre responde é como isso acontece em sociedades capitalistas, a partir daquilo que Hegel mostra na obra já citada. Como vocês podem imaginar, isso é difícil demais, e como ainda não terminei o livro, fico por aqui.

Chul-Han me parece mais simples, embora sua fama não se de por isso, mas sim por seu objeto de estudo. Chul-Han investiga, a partir da tradição alemã que compreende desde Hegel (olha ele de novo) até Martin Heidegger, nossa relação com a internet, em especial com as redes sociais. E é ele quem nos interessa aqui.

O foco da obra No Enxame: reflexões sobre o digital,  que ainda estou estudando, é basicamente ampliar a ideia de biopoder desenvolvida por Foucault a partir da análise das redes sociais e da internet em geral. Para quem não sabe, biopoder é a teoria foucaultiana de que não há um poder centralizado que a todos governa, mas sim a ideia de que o poder é algo fragmentado, que esta espalhado, e pode ser percebido em relações simples e cotidianas. Você já se perguntou porque você age de uma certa forma dentro da igreja e de outra no trabalho ou em casa? Foucault diria que é porque as relações de poder entre você e o padre, você e seu patrão, você e sua mãe são diferentes, de modo que você próprio vigia seu comportamento diante destes espaços. O biopoder entretanto vai além e exerce força em nossa vida de fato, como quando, além de moldar comportamentos e gestos de nossos corpos, também percebemos que existem políticas que exercem poder sobre o corpo humano. Por exemplo a falta de investimento em políticas que diminuam a miséria, permitindo que crianças cresçam sem nutrientes, portanto sem o desenvolvimento pleno da capacidade cerebral e corporal. Disto decorre que populações empobrecidas possuam pessoas com saúde mais debilitada e atraso escolar. A ampliação deste conceito para Chul-Han é o psicopoder, que será tema em um artigo futuro.

Chul-Han pontua que nossa sociedade atual eliminou alguns traços cultivados por séculos entre as sociedades: o tempo para pensar, o silêncio para refletir, a individualidade, e etc. Neste texto quero falar apenas do tempo para pensar.

As redes sociais abriram áreas de comentários para, supostamente, democratizar o debate público. Isso eliminou o mediador do debate no mesmo espaço, e a falta do mediador, de um filtro, se por um lado possui um potencial para deixar o debate plural, por outro faz com que escutemos ruídos nas informações e pensemos a partir deles. O que isto quer dizer? Basta lembrar das inúmeras vezes que uma discussão se iniciou em uma área de comentários e, de repente, se perdeu em debates completamente alheios a proposta do texto/vídeo.

É aquela coisa: um artigo sobre cavalos marinhos acaba com gente discutindo sobre #LulaLivre e #Bolsonaro2018. E o artigo em si? Sobre o que ele tratava mesmo? Ninguém se lembra. Meus textos mesmo, não raras vezes, termina com gente debatendo entre si questões fora do contexto, quando não desejando que eu morra. O ponto, entretanto, não é conteúdo do debate, mas sim a falta de reflexão do público sobre o que se debate.

A área de comentários, mas não somente ela, se torna um local de transmissão de pensamentos irrefletidos, que não raras vezes, não corresponde muito bem ao que a pessoa pensa de fato. Essa massa de pensamentos irrefletidos, que acaba se tornando a área de comentários, serve de matéria prima para outros comentários. É gente que chega no meio da discussão e acaba se envolvendo com massa bruta de desejos e pensamentos que não passaram por nenhum filtro, nem mesmo o filtro pessoal.

Daí um dos mandamentos mais importantes da internet, que foi sumariamente esquecido nos dias de hoje: jamais abra a área de comentários. Especialmente do G1.

Você começa a ler os comentários, fica puto com o que lê, sente um desejo enorme de ofender a pessoa que fez o comentário porque não suporta a ideia de que alguém pense as besteiras que você está lendo. Mas as vezes nem a pessoa que escreveu pensa bem daquela forma, ela escreveu porque seguiu o fluxo, seguiu o BR HUE HUE. Comentou porque é de esquerda e tem que lacrar ou é de direita e tem que oprimir. Claro, estou simplificando para que o público entenda, mas é mais ou menos isso.

Mas isso não fica apenas nos comentários, está presente nas redes sociais como um todo. Ninguém reflete muito sobre o que faz, apenas faz de modo a construir uma persona online que, mais uma vez, não reflete muito bem a subjetividade real da pessoa.

Comprou café? Foto+filtro = stories no Insta. Pensou uma frasezinha sarcástica/irônica? Vai pro Twitter. Printou bobagem, pensou aquele textão lacrador? Vai pro Face.

Mais uma vez, o lance não é o que vai ou não para as redes sociais, mas sim o processo de não pensar que empobrece a subjetividade. De repente todo mundo quer ser diferente e milagrosamente todos são iguais. Abra seu Insta e conte quantas garotas postam foto segurando o cabelo, tentando parecer sexy/ingênua ou quantos guris postam a foto de frente para o espelho mostrando os músculos tentando parecer malandro do Leblon.

A padronização, que sabemos não nasceu com a internet, foi massificada com ela a níveis jamais pensados. Esses ruídos de informação estão causando problemas na formação de identidade do sujeito, problemas na formação de pensamento crítico, até que acabamos por sofrer com intervenções subconscientes onde a pessoa diz para ela mesma, em nível subconsciente, faça isso, não faça aquilo.

Desnecessário dizer que grandes empresas como Google e Facebook lucram com o processo e reforçam o que há de pior na raça humana. Basta você digitar bombeiro e bombeira no Google e ver o resultado: na sua frente você verá aquilo que foi pesquisado bilhões de vezes. Creio que você entendeu que estas pesquisas feitas, de acordo com Chul-Han, foram sendo reforçadas de modo inconsciente através de debates e termos de busca na internet que ocorrem de modo irrefletido pela ausência de um mediador.

Meu conselho então brô, é que você se lembre que 99% das vezes ninguém pediu sua opinião, e mesmo que tenham pedido, pensa bem se sua opinião é relevante. Você é especialista em política? Não? Então amarra os dedos e para de bostejar por ai. Não é médico? Peloamordedeus para de disseminar a ideia de que vacina causa paralisia ou o raio que o parta.

Reflete bastante no que vai dizer, no que vai escrever, no que vai postar. Sua vida não é tão interessante como você pensa, a não ser para umas seis ou sete pessoas que realmente te amam. Dê tempo para formar uma opinião, uma identidade, uma preferência política ou estética. Escute mais, leia mais. Fique um tempo pensando sozinho sobre o assunto, sem a interferência de gente tosca como o Felipe Castanhari que diz explicar Guerra na Síria e os Atentados do 11 de Setembro nas horas vagas, enquanto não está participando de algum quadro degradante no Pânico na TV, o pico mais alto da degradação humana. Só pensa brô, sozinho, na sua, com seus próprios pensamentos.

Vai te fazer bem e a sociedade vai agradecer. Eu principalmente.

Participe da conversa! 2 comentários

  1. Sinto me como se acordando do pesadelo. Obrigada

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