Estou assistindo The Walking Dead e lá pelas tantas, na quinta temporada, Rick mete um balaço na cabeça de um morador de Alexandria depois de ele ter espancado a mulher e assassinado um outro cidadão. No meio do apocalipse zumbi os moradores decidem fazer um enterro para o cidadão morto e também para seu assassino, e Rick ralha com a decisão. Diz que assassino nenhum será enterrado dentro dos portões da cidade. Daí decidem fazê-lo fora. Minha esposa pergunta, “mas qual a diferença entre enterrar dentro e fora?“, e eu respondo “toda relação humana é simbólica“.

E assim nasceu este texto com minhas reflexões sobre poder simbólico a partir de Pierre Bourdieu, sociólogo francês, que segundo as más línguas, seria o Nietzsche das ciências sociais.

Já adianto que de Bourdieu eu conheço pouco, o mínimo, mas mesmo este pouco me encanta. Dos teóricos clássicos que escrevem sobre poder (Weber, Nietzsche, Foucault, Arendt e Habermas), Bourdieu se destaca por ter conduzido uma investigação bastante densa e criteriosa sobre as minúcias desta categoria filosófica. Vamos a ela.

Bourdieu parte de Kant e Durkheim para apresentar seu projeto sobre poder simbólico que institui a ideia de que o poder se dá em camadas, senda a camada da religião, da linguagem, da arte a camada estruturante, ou modus operandi. Há o opus operatum, que seria como estes sistemas estruturantes são operacionalizados. Pense em alguém que é religioso fazendo uma oração sincera para seu tumor desaparecer e você, mais ou menos, compreendeu como um se relaciona com o outro. O próximo passo de Bourdieu é fazer compreender como estes mecanismos produzem dominação de um sujeito sobre o outro, através de sistemas culturais dominantes e sistemas culturais dominados. Ao fim o autor escreve sobre como sistemas de produção cultural ideológica legítima (portanto não criminosa ou violenta) reproduzem de forma irreconhecível a estrutura do campo das classes sociais.

Fica mais ou menos assim: no campo social existem relações entre pessoas que colocam, por exemplo, a cultura vinda da Europa como algo a ser alcançado e a cultura vinda da África como algo a ser evitada. Muito rapidamente os sujeitos identificados como europeus se tornam melhores que o sujeitos africanos.  Isso se desdobra por exemplo, nos códigos religiosos: “chuta que é macumba” e “se benze do mau olhado”. A macumba é maligna, o sinal da cruz é benigno. Ou no padrão estético: usamos terno, smoking e vestidos rendados em festas ao invés das roupas que imitam o bògòlanfini, roupa tradicional do Mali ou o BouBou, modelo de roupa bastante utilizado no oeste do continente africano. E sabemos que no Brasil a influência africana é tão grande ou maior que a europeia, com o detalhe que nosso clima é mais parecido com o africano do que o europeu.

Essas relações culturais que ocorrem no campo social são advindas da estrutura social do lugar, no caso aqui citado, o Brasil. O próximo passo são as categorizações entre melhores e piores, bonitos e feios, e etc, até que por fim, essas relações chegam nas estruturas maiores da sociedade e então passam a ser utilizadas para que determinados sujeitos dominem uns aos outros. Até próximo ao fim do século 19 os negros eram escravizados no Brasil, e não faltavam argumentos nascidos dessas relações sociais para justificar o crime dos crimes. Ou seja, os argumentos usados nas conversas de rua, nos botecos, entre mãe e filho, padres e fiéis, confluem até esferas políticas mais altas que acabam adotando estes argumentos e os tornando política de Estado, e assim, perpetuando relações de poder e dominação. Uma vez tornado política de Estado, as pessoas acabam reforçando seus argumentos cotidianos: “não sou eu que penso assim, mas os que estudam ou que nos governam”. Não nos esqueçamos também que no passado e também no presente, a ciência é usada para estes fins. Pesquisas são encomendadas para afirmar A ou B. Hoje sabemos que pesquisadores receberam dinheiro para publicar pesquisas afirmando que negros são inferiores aos brancos e que cigarro não causa câncer; amanhã descobriremos que a indústria alimentícia paga pesquisadores para dizer que agrotóxico não faz mal, que carboidrato faz bem, ou que a indústria petrolífera paga cientistas para afirmar que o aquecimento global não existe.

Dito de outra forma, a linguagem acaba se tornando um meio de propagação entre disputas de poder porque através de conversas simples e aparentemente ingênuas, existe uma troca simbólica sempre muito forte e pouco evidente. Como quando você está debatendo com alguém e diz: “mas isto foi comprovado cientificamente” ou “mas foi o pastor quem disse”. Você diz estas coisas na esperança de vencer o debate e fazer sua opinião ser ouvida e aceita. Por trás, o que está sendo debatido, é a supremacia do discurso científico ou religioso sobre a opinião do sujeito.

Na série, enterrar um assassino fora dos portões da cidade tem um valor simbólico muito forte. Diz que quem assassina não faz parte da comunidade de forma alguma, seja vivo ou morto. Em um mundo onde zumbis são maioria e viver fora dos portões significa a morte certa, espera-se que as conversas do dia a dia sejam mais ou menos no sentido de se comportar bastante para não ser jogado para fora dos portões da cidade, seja vivo, seja morto.

E no Brasil?

No Brasil, de uns tempos pra cá, as conversas de bar, nas festas de família, nos corredores dos escritórios, está rolando aquele papo manjado que saiu dos escritórios da Av, Paulista para o mundo. O de que só é pobre quem não se esforça, que o Estado não presta, que imposto é roubo, que o a meritocracia deve regular a sociedade, e toda essa ladainha que vocês têm escutado.

Não vou falar da verdade ou falsidade da coisa toda, mas sim da disputa de poder que está por trás. Se só é pobre quem não se esforça o suficiente, isso significa que pobre é algo próximo do vagabundo, e ser vagabundo é um defeito moral. A separação entre pobres e ricos se torna, em nível imperceptível, a diferença entre quem é virtuoso e quem não é, e então não se trata apenas de dinheiro, mas de ser alguém de quem a família se orgulha ou não. E quem diz que o Estado não presta, que ele só atrapalha? Atrapalha de que forma afinal? Com os impostos, que agora dizem ser roubo?

Quando minha mãe teve câncer e se tratou pelo SUS, o Estado ajudou e muito. Quando a mãe da minha filha e minha irmã fizeram seus pré-natais e seus partos pelo SUS, idem. Alguém irá dizer que o SUS não funciona, e eu preciso dizer que sim, funciona, porém pouco, por ter poucos recursos e pouco material humano. Seu problema é a falta de SUS, não o excesso do mesmo. Mas dizer que o Estado não presta significa dizer que existem pessoas que são prejudicadas pelo Estado, como por exemplo aquele latifundiário que além dos dez litros de agrotóxico que ele te faz ingerir por ano, quer envenenar ainda mais sua lavoura e os legumes que você da pro seu filho comer. Ou do dono de alguma grande empresa que contrata gente em regime análogo a escravidão e foi multado com uma indenização milionária. Fazer você acreditar que o Estado não presta é fazer você deixar de acreditar na única estrutura que teria capacidade de te proteger dessas merdas todas.

E a meritocracia? Voltamos para o primeiro item: se você recebe o que merece por causa dos seus méritos, se você não venceu na vida, além de vagabundo é burro, e merece a miséria em que vive. O discurso meritocrático nos faz engolir, sem perceber, a ideia perigosa de que algumas pessoas merecem uma vida miserável, sem perspectiva, sem muita felicidade, porque é muito difícil ser feliz quando a alimentação está comprometida. Quando jovem morei no interior de São Paulo, em frente um lixão que estava nascendo, e para comer verduras, plantávamos, e para comer carne, meu avô fazia armadilhas de passarinho. E não foi uma época mágica da minha vida, do tipo: “eu era feliz e não sabia”. Era uma bosta e desta experiência toda não aprendi porra nenhuma.

Do resultado desta combinação de argumentos críveis, nasce a figura do pobre de direita. Um pobre diabo que repete mantras saídos de livros de coaching empresarial, mais uma nova religião do século 21, sem perceber que por trás do seu discurso, ele está advogando contra si. E a carga simbólica do que ele diz, neste momento em que vivemos, está começando a se tornar política de Estado.

Carlos Marun, articulador político de Temer propõe o fim do SUS gratuito; já foi aprovada a reforma trabalhista e o fim do imposto sindical; grita-se pela privatização das nossas riquezas nacionais.

O pobre de direita aplaude tudo isso, alguns gritam “Bolsomito” sempre que podem, e nenhum deles percebe que toda relação de poder social acontece em conversas simples, do dia a dia, e que é o seu discurso que fará ele, pobre de direita, morrer pobre, talvez de esquerda. Porque se é verdade que o comunismo não deu certo em nenhum lugar do mundo, me aponte um lugar aonde o neoliberalismo deu certo também.

Vou ficar esperando as respostas, enquanto observo você, pobre de direita, continuar reclamando que as passagens de avião ficaram mais caras, que não consegue mais pagar seu plano de saúde, que a gasolina chegou a cinco reais, o quilo da carne não para de subir.

Até lá, boa sorte, vamos todos precisar.

Participe da conversa! 17 comentários

  1. Muito bom o texto. Eu me pergunto apenas se o Rick morresse ele seria enterrado do lado de dentro. Porque bem ou mal, ele também é um assassino.

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  2. Parabéns pelo texto, pertinente sua colocação. Mais do que isso, incrível.

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  3. Que reflexão sensacional! O tipo de texto que gera aquele convite agradável pra pensar um pouco antes de dormir

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  4. Amei o texto, é o que digo sempre ” pobre de direita ” aplaudindo tudo se achando burguês, então me pergunto, será que ele está em tempo real? Será que ele sabe burguês hoje é” nobreza ” e a plebe somos nós kkk. Enfim sempre costumo fazer uma analogia da novela avenida Brasil, onde Carminha humilhava sua ” empregada ” e a mesma repetia tudo com a sua ” empregada ” , tudo tão hilário , e o ciclo vicioso continua, o pobre se achando burguês, acrescentaria a seu texto, Fanon ” Pele negra, máscaras brancas ” cairia bem com sua ilustração!

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  5. O texto é ótimo. Mas esperava que explanasse mais sobre o pobre de direita. Eles tem frases típicas que repetem mesmo de discursos prontos que denotam no mínimo um desconhecimento imenso de história do Brasil. Defender a direita nesse país é, sem menor sombra de dúvidas, ignorância de tudo que ela já produziu historicamente no país. Vale a pena um outro texto nessa linha de raciocínio continuando a ideia. Parabéns.

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  6. Que texto! Que síntese! Que gancho! Que análise! Muito bom!!!

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  7. Parabéns! Leitura clara e agradável. Fico em duvida se ainda sou pobre de direita ou de esquerda. O certo é que ainda sou pobre. O que mudou? Hoje tento manter-me sóbrio, mais antenado, procuro ler mais, manter um posicionamento mais equilibrado sobre o lado humano das pessoas. Ver quem nem tudo é completamente ruim, nem perfeitamente bom. Ajuda bastante a não sair do eixo.

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  8. Quando jovem morei no interior de São Paulo, em frente um lixão que estava nascendo, e para comer verduras, plantávamos, e para comer carne, meu avô fazia armadilhas de passarinho. E não foi uma época mágica da minha vida, do tipo: “eu era feliz e não sabia”. Era uma bosta e desta experiência toda não aprendi porra nenhuma.
    Gostei do teu texto tem muita coisa interessante nele, principalmente quando vc usa pensadores para legitimizar as falar , mas quando vc falar por si so, tem hora que não dá muito certo não , tipo o exemplo colado aí no início do meu comentário, o valores q provavelmente teu avô tento passar vc, do trabalho, mas o texto e bom o início e meio . Um abraço

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