Esse ano sai do armário: sou hegeliano e habermasiano, paciência. Carrego muito dos meus estudos em Nietzsche, bastante de Foucault e Arendt, adoro Deleuze e Spinoza, mas sempre recorro a dois dos mais chatos filósofos de todos os tempos quando a coisa aperta. Ao que me refiro?

Ao Facebook derrubando páginas e perfis associados ao MBL, que juntos, geravam 150 milhões de reações e engajamento. Mas antes do texto, pausa para rir. Um pausa longa porque verdade seja dita, saber disto hoje pela manhã fez meu bom humor ficar muito acima da média. Então vamos rir juntos, eu aqui você ai por longos minutos. Agora prossigamos.

O caso, vocês devem saber, é que o Facebook derrubou segundo seu comunicado, 196 páginas e 87 contas no Brasil por sua participação em “uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”. Então não, o problema não são fake news, nem a palavra da moda que já passou, a pós-verdade. O problema real é esse: uma rede que tem por finalidade específica propagar desinformação e gerar divisão social, escondendo de seu público tal finalidade.

Claro que a esta altura os MBLíticos – meu neologismo para os fãs do MBL – já montaram sua teoria conspiratória: é tudo um plano do Facebook, uma rede social esquerdista de cunho marxista, que está censurando o MBL por causa da sua visão ideológica. Vão além e fazem uma associação dizendo que o Facebook ao derrubar tais perfis e páginas está querendo ver Lula livre, e etc. Quanto a estes não há o que fazer. Se mudarem de opinião não será por causa deste texto. Se não mudarem deixo um conselho: aproveitem o último respiro de ódio e burrice, pois essas coisas haverão de morrer assim que vocês também morrerem velhos e esquecidos. Desejo que vivam muito, que morram todos bem velhos e de causas naturais, e que aproveitem bem o ódio que propagam, a desinformação que espalham, junto com toda xenofobia, racismo, homofobia e etc, porque tudo isto está acabando. No futuro não existirá programa como o Pânico na TV/Rádio, não por censura, mas porque lentamente a população está percebendo que piadas preconceituosas não são piadas e que sim, dá pra fazer rir sem ser idiota. A TV Quase está ai pra isso.

[Abre parênteses: assisti o “debate” entre Gilberto Dilmenstein e um outro que não vou dizer quem, e a entrevista de Leandro Ramos e Raul Chequer para o Pânico no Rádio e fiquei bestificado assistindo os apresentadores Emílio Surita e Carioca defendendo com bastante energia o direito de ser preconceituoso. Fecha parênteses].

Meu texto é para quem ainda tem mais de dois neurônios e não tem preguiça de usar. Daí eu consigo me lembrar de Habermas falando em muitos textos que a Democracia precisa de canais de comunicação confiáveis e plurais para que a população possa, através destes canais formar uma opinião que seja resultante de um processo reflexivo. Por muitos anos a imprensa brasileira foi tudo, menos plural. O problema começa quando nos damos conta que é a imprensa quem escolhe o que vai ser noticiado e o que não vai. Depois decide como será noticiado. No Brasil, todas as grandes revistas do país noticiam os mesmos eventos do mesmo modo. Disto decorrem doidices como uma matéria “jornalistica” narrando como uma garota conseguiu montar uma linha de cosméticos, do zero, APENAS com 300 mil emprestados do avô.

Nada contra a guria e seu avô rico, desde que não tenham escravizado/roubado/matado ninguém no processo. Mas isto é notícia para quem, meu Deus do céu? Para mim que conto moeda todo fim de mês, que visito meus pais uma vez por ano por falta de grana? Para o brasileiro que voltou a cozinhar com fogão a lenha porque não compra gás? Enfim, você sacou.

A internet prometeu revolucionar isto, mas causou fragmentações gigantescas, das quais falei em partes AQUI, e uma delas foi a existência de uma nova tecnologia na área da comunicação capaz de produzir o oposto do que precisamos para que exista a democracia: desinformação.

Não se trata de produzir fake news ou pós verdades, mas sim de, conscientemente e intencionalmente, produzir ruídos na formação da opinião do cidadão, manipulando habilmente desejos, medos, raivas, ressentimentos. E não, isto não é teoria conspiratória, pois este é o trabalho diário de qualquer pessoa que trabalha no ramo da publicidade/propaganda ou marketing. Se é possível fazer isto para fazer um ser humano comprar uma calça por 1200 reais, mesmo sabendo que a calça foi feita por seis reais e com trabalho escravo, porque não seria capaz de vender desinformação?

Que seu público não perceba que sofre, e até os defenda, é aceitável e tolerável, embora seja uma bosta. Que aqueles que compreendem o processo sejam coniventes, não. Eu não compreendo os trâmites legais pelos quais o Facebook derrubou essas páginas, mas eu ri, mesmo que o tenha feito por linhas tortas. O Direito tem por finalidade garantir a democracia, e se ele não tem ferramentas para isso, o Direito precisa ser revisto. Mas não da para esperar que nosso Congresso desgraçado e desalmado tome alguma medida séria para preservar a Democracia depois do golpe. Então mesmo contrariado eu vejo com bons olhos esse revés que o MBL sofre.

E não sejamos tolos nem inocentes. Flavio Rocha, autuado por problemas com trabalho escravo em fábricas da Riachuelo, e ex candidato a presidência tinha uma página que foi derrubada. Outras páginas eram ligadas, segundo o próprio MBL, ao Bolsonaro. No passado recente o MBL lambia as botas de João Doria. Rapidamente você liga os pontos e começa a descobrir que existe uma rede produzindo desinformação e atentando diretamente contra a democracia, e que estes pontos tem nome: João Doria, Jair Bolsonaro, Flávio Rocha, MBL, Mamãe Falei. 

Habermasiano que sou, fico feliz portanto que não apenas tenham caído estas páginas, mas que eles próprios se acusem, se nomeiem, porque assim a população começa a compreender as engrenagens que estão movimentando o país neste momento. E que a esquerda jurássica comece a fazer o mesmo, mas pelo lado correto. Que abandone os panfletos e o discurso derrotista e vitimizado e comece a construir uma rede de engajamentos positivo não para doutrinar, mas para esclarecer e pulverizar conhecimento. Que as pessoas votem na esquerda pelos motivos certos. E que votem na direita pelos motivos certos, porque a esquerda não tem o monopólio das virtudes.

Meu lado hegeliano me faz ver que há portanto um avanço começando a acontecer, ainda em estágio bem inicial. A cada dia mais e mais merda do MBL começa a ventilar, e a cada uma delas, mais e mais pessoas começam a compreender o tamanho do enrosco que esses homens são. E são homens, não meninos. 22 anos o cara já sabe o que faz da vida, não é mais menino não.

Essa merda toda é como um vírus, e eu creio que a população começa a desenvolver anticorpos contra isto. Se a desinformação é uma indústria, eu creio que dá pra levá-la a falência, e não será tão difícil como eu supunha.

Mas por hoje, vamos rir. A Democracia teve uma vitória hoje e isto tem sido raro nos dias selvagens que vivemos.

PS. Estou começando a construir uma investigação sobre o tema “Fábrica de desinformação: uma ameça a democracia”, em especial para analisar estes casos nas redes sociais. Até onde eu sei sou o primeiro a pensar séria e academicamente o assunto. Se souberem de mais alguém, ou bibliografia sobre o assunto peço que me passem! Se alguém topar estudar o assunto comigo, será mais que bem vindo!

Participe da conversa! 10 comentários

  1. Li o texto só pelo título. É interessante ver um esquerdista sair do armário pra defender censura, é assim que começam as ditaduras. Mas gostei do seu texto, defendeu elegantemente a censura – só não consigo concordar com o riso. Mas se ler algo inteeressante sobre informação e desinformação é seu interesse, sugiro – por ser incrivelmente impopular no Brasil – o “Information Anxiety” do genial arquiteto Richard Saul Wurman, criador do TED. Se você já leu, sugiro que leia de novo, e depois releia o que escreveu…

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    • Já eu sugiro que leia “Faktizität und Geltung: Beiträge zur Diskurstheorie des Rechts und des demokratischen Rechtsstaats”, do Habermas.
      Aí compreenderá porque não é censura e poderá voltar aqui e apagar sozinho o comentário.
      Isso demorará anos, mas sou paciente.

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      • Ok, não tenho tanto tenho tempo (não vivo de filosofia), não sei se tenho paciência (por que algumas pessoas precisam escrever tanto quando as ideias são, na verdade, tão poucas?), mas vou tentar…você sugere algo mais compacto?
        Se ler só o apêndice serve?

        Mas independentemente disso, e sem querer ofender, afinal, você pediu uma sugestão… Mas é que discodei bastaste do riso sarcástico por ele ser sintoma da sua parcialidade no contexto – e que vale para a indicação de leitura também (você riria assim se bloqueassem as páginas de fake-news ditas “esquerdistas”?).
        Que tal mudar de foco, o curto “Ulysses Unbound”, de Jon Elster (tem 1/3 do tamanho do Habermas)? Se quiser vai só com
        Elster, J. The Case for Methodological Individualism. Theory and Society Vol. 11, No. 4 (Jul., 1982), pp. 453-482. (Assim não mato o debate jogando a bola no mato – com um livro de 700 páginas….)
        Só sugestão.

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      • Sugestão aceita.
        Confere o manual excelente organizado pelo Marcos Nobre e Ricardo Terra, Direito e Democracia, um guia de leitura.
        Da uma lida do capítulo 4, escrito pelo meu orientador em diante.
        Mas especialmente os caps 9 e 10.
        Deve dar umas 60 pags, no máximo, é em pt-br e vale a pena.
        E para ser bastante sincero já lhe digo qdo vou poder ler o texto q me recomendou: em dezembro, nas próximas férias. Dai vejo se me retrato ou não.
        Independentemente da lhe darei os devidos créditos pelo debate.

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      • Até Dezembro!

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  2. Muito elucidativo e inteligente seu texto. Eu nunca havia visto nada de conteúdo seu, contudo irei acompanhá-lo mais!
    Forte abraço!

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  3. É interessante esse jogo que usam para defender fake news como liberdade de expressão. Não há como confundir um com o outro, a liberdade de expressão não é um alvará para poder mentir. O assunto é do caralho para pesquisar, mas também desconheço bibliografia hahaha

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  4. Parabéns pelo texto.
    Acredito sim que a censura é boa, não acredito que tenha sido o caso, mas se não tivermos certas censuras, muitos vão achar que podem sair pelados por ai.
    Outro ponto é que não entendo essa necessidade de taxar de esquerda ou direita, afinal temos que pensar em um Brasil para todos e não a exploração de muitos para o enriquecimento de pouquíssimos.

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