Demi Lovato participou de uma festa que durou dois dias, se drogou e teve uma overdose. Sobreviveu, passa bem e está responsiva no hospital, e creio, todos ficaram felizes, pois toda vida é preciosa. Inclusive a vida do bezerrinho que você come quando leva a/o crush para jantar.

O Twitter está destacando a hashtag #PrayForDemi entre os trendig do dia, e pelo menos é uma hashtag maneira, não algo cretino desejando o mal para a mulher. Daí me veio na cabeça escrever um texto, mas não sobre o manjadíssimo “ah, enquanto milhões sofrem com as drogas na cracolândia vocês rezam por Demi” ou “vamos falar sobre liberação da maconha“, nem nada do tipo. Embora a primeira sentença seja verdadeira e a segunda necessária.

O meu lance é o TMZ.

Se você não saca o que é, o TMZ é um site tipo Revista Quem, gringa. É um site de fofoca, que publica fotos constrangedoras, notícias desimportantes e qualquer coisa que atraia cliques. Se você for lá agora (26/07/2018, 18:42) irá ver uma fantástica notícia do Justin Bieber beijando alguma desconhecida. No site da Quem, mesmo dia e hora, há uma foto do Paulo Vilhena beijando alguém. É foda, né?

TMZ foi quem deu a notícia da over de Demi, sem, obviamente consultar a família se ela queria ter este tipo de intimidade exposta. Para quem publica e consome este tipo de notícia, foda-se a vida privada, isso não existe mais. É coisa de filósofo chato, tipo o Habermas, ficar perguntando sobre a separação entre esfera pública e privada. Mas Habermas se pergunta, e ele vai lááá na Revolução Francesa para mapear o nascimento da subjetividade privada. Aí ele publica sua tese de doutorado, Mudança estrutural da esfera pública, depois de tretar com Adorno e Horkheimer por divergências sobre o modelo proposto pela Escola de Frankfurt/Teoria Crítica lá em 1962. De lá pra cá ele lapidou sua tese: se antes havia uma separação bastante rígida no espaço público e privado incentivado pelas cafeterias francesas do séc. 18, que incentivava o livre debate de ideias, hoje a esfera pública invade a privada, mesmo antes da internet. Mas esse papo rende um livro, não um texto, e eu até queria, mas não sei como resumir a parada direito porque – vai por mim – ela é complexa. O tema é também a tese de doutorado do meu orientador, Felipe Gonçalves, que só ganhou como melhor tese de doutorado em filosofia do país quando foi defendida.

De qualquer forma, acho que podemos partir do ponto que é uma bosta esse lance de ficar fuçando a vida alheia. Se você faz isso porque quer nas suas redes sociais, ok, acho meio zuado um grau elevado de exposição, mas sou falando e minha opinião vale tanto quanto minha opinião. Então se tudo isso é ponto aceito, vamos para o texto.

O que me incomoda, e não é de hoje é a imbecilização do nerd. Quer dizer, quando foi que o nerd se tornou tão escroto? Nos anos 70/80/90 ser nerd era o sepultamento da sua vida social. Lembro de ir em sebos comprar gibi escondido dos meus colegas de turma, porque sabia que se descobrissem, eu seria motivo de piada e minhas chances de ter alguma vida social iam pro ralo igual mijo. Ah, piada = bullying severo, daqueles que traumatiza e te faz pensar em suicídio. Claro que descobriram, e passei a fugir da escola. Matei aula por três meses, tive minha matrícula cancelada, e fiquei, veja só que coisa mais nerd, jogando fliperama esse tempo todo. Zerei com todo mundo em Marvel vs Capcom, Street Fighter vs X Men, Street Figther Alpha 2 e sei lá qual outra máquina. Minha vida era ler gibi, jogar fliperama, comer churros e churrasco grego, se escondendo das gurias do colégio que me humilhavam dia sim outro também. E dos guris que volta e meia resolviam me dar uns cascudos.

Que bom que os tempos mudaram, os nerds não se escondem mais nas vielas ou nos banheiros do colégio. Hoje eles vão ao cinema, movimentam uma indústria milionária e nas horas vagas distribuem racismo, homofobia, machismo e outras bostas. Atrizes de Star Wars cancelaram suas contas nas redes sociais por causa da avalanche de ódio e preconceito contra elas. O ator intérprete de Jar Jar Binks pensou em suicídio pelo mesmo motivo. Se antes o nerd falava português e outro idioma, geralmente o inglês, isso pouco mudou. Mas ao invés do inglês, fala várias bosta. E eu nem vou falar desse bando de nerd velho querendo bater punheta para a Velma do Scooby-Doo ou a She-Ra.

Daí veio a obsessão quase fálica com as referências. Filme bom é filme com referência a um passado que só existe na imaginação infantil do nerd dos anos 00/10. Roteiro, interpretação, inovação, sentimento, tudo isso fica pra depois. Surgiu na internet uma espécie nova e estranha de youtuber/produtor de conteúdo: o analista de trailer: uma mistureba de imagens de três minutos rende uma discussão de uma hora nas mãos de Erico Borgo & Cia no Omelete. E discutem como quem debate um plano de contingência para resolver o problema da imigração forçada por conta das conflitos na Síria. Debatem como quem irá resolver a crise política em que nos metemos. Sartre, se vivo, diria que isto é a Náusea. Da pra imaginar ele reescrevendo Entre quatro paredes colocando Érico Borgo, Alexandre Otoni e Carol Moreira na parada. Seria um livro pior, mas eu ainda assim teria curiosidade pra ler.

O nerd br dos anos 00/10 se tornou mais afetado que qualquer parisiense da Belle Époque, com maneirismos, trejeitos, gírias e óbvio, preconceito em doses cavalares. Além de uma futilidade vista apenas em… isso mesmo, nos leitores do TMZ/Quem.

Abra sites como o Omelete agora. Você verá que Henry Cavill quer ser o novo 007, um rumor de que Liv Tyler pode estar em um outro filme/remake, que alguns personagens de Vingadores morreram e outros viveram no último filme e… e não tem mais nada. É só isso mesmo.

E antes de falar que isso é bacana e tals, eu concordo. É. Mas olha os caras do Judão. Eles trazem essas coisas todas & textos bem bacanas para ajudar esse bando de nerd imbecil e preconceituoso a pensar um pouco. Da pra fazer os dois, não são inconciliáveis. Saca?

Pra finalizar mando eu também minhas boas preces para que a moça lá fique bem, assim como os viciados do mundo inteiro, mas eu preferia não saber dessa informação a menos que ela quisesse falar do assunto como fez o excelente Casagrande ao fim da Copa. E deixo a pergunta: quando foi que o nerd passou a ser o otário da vez e quando deixará de sê-lo? E sim, brô, há exceções, mas o texto não vai tratar delas ok? Não vai porque a exceção não é um problema aqui, e é do problema que eu quero e preciso falar.

Creio que você também, inclusive.

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