Slavoj Zizek diz em Menos que nada: a sombra do materialismo dialético, a respeito do humor, aquilo que ele já repetiu várias vezes: que ao chegar em um local desconhecido pede que as pessoas contem uma piada suja da região. Algo bem pesado. Porque? Porque assim ele tem um retrato mental fiel da cultura local.

O humor carrega um lastro de resíduos das relações humanas – entre subjetividades – e das relações sociais – entre os papéis que desempenhamos na sociedade como mãe ou empregado. A ideia de que o humor tem um poder maior do que o normalmente aceito foi explorado pelo jornalista britânico Ben Lewis em Foi-se o Martelo – A história do comunismo contada em piadas. A tese de Lewis é de que o humor ajudou a derrubar a URSS da mesma forma que Stálin, com seus 200 mil presos em gulags por contar piadas (de um total de 2,5 milhões em 1953), incentivava os seus comandados a usar o humor a favor do regime stalinista.

A ideia de Zizek – mas não somente dele – é de que o humor revela como nos tratamos, como pensamos uns dos outros, em nível subconsciente. Quer saber, de modo fiel, qual o papel social de um judeu na Alemanha nazista? Procure uma piada contata por oficiais nazistas sobre judeus. Quer compreender o que os japoneses pensavam dos chineses durante a segunda guerra sino-japonesa? Faça o mesmo, procure as piadas. Quer entender o que o senhor de engenho pensava de seu escravo? Você já entendeu.

Daí minha birra com essa sub-categoria de seres humanos, os youtubers engraçaralhos.

Porque o Youtube Br, salvo raríssimas exceções, é uma fabrica de racismo, xenofobia, misoginia, e agora, a terra de estupradores confessos.

Depois do Cocielo sendo racista com Mbappé, de Jacaré Banguela sendo racista com Jaden Smith, Everson Zoio admite ter estuprado a namorada em um vídeo postado no seu canal no Youtube. E todos riem. E claro, uma massa de gente sai em sua defesa. Meu brother Sandro Barroso, da página Pense, é Grátis, reuniu alguns comentários sobre o caso:

São elucidativos. Por dois motivos: primeiro porque traz a tona aquilo que milhares de brasileiros pensam. É como se destapassem um fosso contendo 500 anos de merda apodrecida e fermentada. A corja ganha coragem e sai da toca pensando mais ou menos assim, “se o Zoio fez e não deu nada, é porque isso é mais comum do que eu achava“. Daí que os manos acima – e outros que não sabemos ainda – ficam corajosos para falar o que falam e confessar o que confessam. De crimes leves como preconceito a crimes graves como estupro.

Segundo, porque é como diz a piada, em tom de brincadeira se diz tudo, inclusive a verdade. Porque se a verdade se revelar vergonhosa, problemática, criminosa, dá pra recuar e dizer: “mas eu só estava brincando“. Fica mais ou menos assim, o cara revela que estuprou a garota, ele e os amigos riem como se não houvesse amanhã, e quando a merda cai no ventilador, volta o cão arrependido e diz: “Eu estava só brincando… Imagina que eu ia estuprar uma garota! E imagina que se eu estuprasse, eu iria confessar desse jeito! Quem me conhece sabe que eu tenho boa índole.

E a desculpa que se segue também já está padronizada, como uma linha de produção. Primeiro se ganha inscritos, e a cada inscrito, o passe livre para ser escroto vai se aproximando. Quando a grana começa a entrar, o sujeito se empodera e pensa que a recompensa da escrotidão é nadar em dinheiro e viajar ao redor do mundo com as contas pagas pelas empresas que agora o patrocinam. Ai uma merda muito grande cai nas redes sociais. Primeiramente o fulano não faz nada; fica quieto para ver se a merda some sozinha. As vezes acontece isso, outras não. Se não, as empresas cortam os patrocínios e contratos. Somente então ele vem a público, após uma reunião com sua equipe de gestão de imagem, com um vídeo pré fabricado, bem ensaiado, fingindo estar emocionado, com a voz embargada, olhos lacrimejando, cara de coitado, pedindo desculpas e dizendo que é um bom sujeito. Quem o conhece sabe.

E isso me faz lembrar como esse cidadão de bem me dá arrepios em 99% dos casos. É fantástico perceber como o cidadão de bem se diverte: humilhando e ridicularizando quem não pode se defender. As piadas são mais ou menos sobre o negro ser vagabundo, a mulher ser puta, o obeso ser idiota, o travesti ter que apanhar, o imigrante ser burro. E a lista segue ao infinito. E aí de você dizer algo contra. Um simples “brô, acho que você pegou pesado agora”. 

Soam as trombetas do apocalipse, e o idiota que falava sozinho se reúne a dezenas de outros idiotas que brigam firme pelo direito de continuarem sendo cretinos. Entre o direito de ofender e de se sentir ofendido, o primeiro costuma ser mais importante para essa galera.

E o Youtube nisso tudo? Foda-se, pensam eles. Mas se você introduzir uma música da Beyoncé em algum vídeo que você subir para o Youtube, ele será censurado tão rápido quanto um raio. Duas ou três vezes que isso se repetir e você terá seu canal removido. Mas racismo, confissão de estupro, homofobia & tudo que há de ruim na humanidade, ok.

O sagrado aqui é o direito a propriedade, não o direito a dignidade humana. Há, aliás, muitas leis que descrevem e protegem a propriedade privada e tão poucas para proteger a dignidade humana. E mesmo a pouca proteção da dignidade humana é atacada. São os seres humanos que odeiam, veja só, os direitos humanos. Seria como árvores a favor do desmatamento ou bois lutando pelo direito de se fazer churrasco bovino.

Mas não quero também fazer o papel de esquerda do lacre. Não quero defender aqui apenas o direito a ficar indignado. Ao contrário. Vamos nos lembrar de Diógenes de Sínope, o primeiro cínico entre os seres humanos. Quando louvaram um filósofo diante dele, o homem que peitou Alexandre. o Grande, Díógenes retrucou: “O que ele tem de grandioso para mostrar, ele que dedicou tanto tempo à filosofia sem nunca entristecer ninguém?”

A filosofia tem que entristecer pessoas. Quais? As burras, as idiotas, as cretinas, os preconceituosos, os fascistas, os racistas, os homofóbicos, os xenófobos, os misóginos, os estupradores. Como nos diz Gilles Deleuze, em Nietzsche e a filosofia: “a filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas.”

Humilhe a idiotice. Faça o tiozão racista da família sentir vergonha no churrasco de domingo. Faça seu pai machista sentir vergonha no Natal. Quando for revelar o amigo secreto do escritório diga: “meu amigo secreto é racista, homofóbico e gosta de fazer piadas cretinas com os obesos, ele é o Roberto”. Chega de lacre, vamos para o enfrentamento. Sem porrada, sem ofensa, sem ser mal educado. Apenas diga em voz alta, sempre que possível, aquilo que a pessoa é. Se ela for racista, diga que ela é racista e problema dela. Não há nada errado em dizer que uma parede é branca, se a parede for branca. Não há nada errado em dizer que o colega é homofóbico se ele se comporta de maneira homofóbica. Filosofia serve para prejudicar a tolice, fazer da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Você apenas terá enunciado um fato do mundo.

E os idiotas do mundo que se fodam para resolver a parada.

 

 

 

Participe da conversa! 1 comentário

  1. Sim. A coisa tá muito feia. Muita coisa durante muito tempo sempre empurrada com a barriga e muita coisa se passava como piada. Uma tristeza mesmo. Muita gente não concorda que o fato de nunca ser discutido anteriormente pode ser diferente hoje. Justamente por ser encarado como é. Racismo e outros tipos de discriminação e de diminuição do outro. Precisamos olhar o outro como ser humano . Sempre. Respeito acima de tudo.

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