6 de agosto de 2018

O que é ser de esquerda?

Quer saber? Cansei de lulistas, ciristas, manuelistas. Cansei na verdade da política partidária. Se aqueles que realmente podem fazer algo não estão dispostos a tal, se a militância se pega de faca entre si, sou eu que vou ficar gastando meu fígado com isso? Uma porra.

Vou voltar pra filosofia pura e teórica que é onde eu me entendo. E voltar a fazer aquilo que Diógenes de Sínope, o primeiro cínico entre os seres humanos, fazia. Entristecer, claro. Já disse no post sobre o Everson Zoio, mas apenas para relembrar, quando louvaram um filósofo diante dele, o homem que peitou Alexandre, o GrandeDiógenes, retrucou: “O que ele tem de grandioso para mostrar, ele que dedicou tanto tempo à filosofia sem nunca entristecer ninguém?”

Na real quero dar aquele passo arrogante além, e me inspirar em Nietzsche, o filósofo que escreveu um livro inteiro para ofender Wagner, aquele de Ritt der Walküren. Então vou voltar aos meus anos de universitário e recomeçar a distribuir ofensas e tristezas. A começar pela esquerda da qual faço parte por hora.

Na Academia, ninguém mais além de Deleuze, conseguiu compreender no século XX o que de fato significa ser de esquerda. Significa um devir. Um devir quase hegeliano de apontar para o não. Como assim? Ora, ser de esquerda significa se insurgir contra esse bando de merda que temos ai: fome, miséria, desigualidade social; fim do Prouni, Ciência sem Fronteira, das bolsas de mestrado e doutorado e da universidade pública. É um tipo de grito que se coloca imediatamente quando alguém tenta foder com sua vida.

Então a esquerda é o grito – falado ou não falado – do trabalhador que está cozinhando comida com fogão a lenha porque não consegue comprar gás de cozinha. Ou da trabalhadora que bate cartão de domingo a domingo em dois ou três empregos de domingo a domingo. Resumindo, ser de esquerda é uma percepção da vida. Obviamente não é necessário sofrer com as desgraças do capitalismo para percebê-lo, basta percebê-lo.

Ser de esquerda é uma percepção que qualquer ser humano pode ter desde que atento as merdas que criamos para nós mesmos. Esta percepção está armazenada dentro de cada um de nós e não se traduz em poder político por um motivo: ao chegar ao poder, qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos imediatamente deixa de ser de esquerda pois um governo necessariamente representa a maioria de um povo, e a maioria de um povo não é de esquerda.

Porque não é? Porque estão quase todos muito ocupados em trocar de carro, viajar para a Europa, comprar o novo iPhone para perceber o moleque cheirando cola na rua. E quando vê xinga o moleque de vagabundo e trombadinha. Um governo que tente governar alinhado com a esquerda acaba acreditando na terra dos Ursinhos Carinhosos propagada por Boulos & Manuela, que parecem concorrer ao DCE da USP, ao invés da presidência dessa bola de pus que é o Brasil. De Deleuze portanto, vem minha birra com governos alinhados com a política identitária: estão falando e governando para quem? Que ninguém em sã consciência duvide que as pautas feministas, lgbtq, do movimento negro são importantes. São, e fim de papo. Mas não se governa a partir delas, e se você quiser saber mais sobre o assunto leia um artigo que a Nancy Fraser publicou sobre a vitória do Trump para a revista online Dissent. O papel destes movimentos importantíssimos é ficar a margem do governo o pressionando a percebê-los.

Aliás a parte mais linda desses movimentos é exatamente o de subverter a podridão que é a política. É fazer o tiozão reaça passar vergonha ao ter que explicar uma “”piada”” idiota. Esses movimentos precisam permanecer a margem, assim como qualquer movimento de esquerda precisa, porque ao entrar para o governo sabe o que acontece?

A esquerda aperta a mão do Maluf.

A esquerda diz amém pro Silas Malafaia.

A esquerda forma chapa com a Kátia Abreu.

E faz isso porque quer voto, e a esquerda não dá voto. Vamos aceitar de uma vez a tese defendida por Adorno e Horkheimer: o povo é reaça e pronto. É uma massa sem rosto que espanca mulher e a joga do quarto andar, que escraviza criança, que odeia imigrante. Depois diluem a culpa dizendo as merdas que todo mundo vem escutando dia sim outro também: eu sou um cidadão de bem.

Enquanto a maioria dilui e não assume a culpa por ser escrota, a minoria que percebe as tristezas e sofrimentos se levanta e fala em nome de todos que sofrem e são tristes. “Enquanto a maioria não é ninguém, a minoria é todo mundo“. Isso é Deleuze brother.

Neste ano os candidatos que se vendem como esquerda vão tomar uma surra nas eleições e todo mundo vai ter que aguentar os bolsominions comemorando nosso pequeno Hitler subindo a rampa do Congresso exatamente porque foram incapazes de se unir em uma única chapa capaz de botar esse bando de fascista pra correr. Alguns quiseram a pureza identitária, outros apenas o poder. Na verdade a fragmentação da esquerda nessas eleições é entre quem quer continuar na esquerda e quem não quer. Boulos e Manuela parecem querer. Ciro e Lula só querem vencer, mesmo que precisem se matar no processo.

E isso é trágico porque mesmo que não exista governos de esquerda como diz Deleuze, existem governos que olham para a esquerda e para suas pautas, e governos que os ignoram. E riem. E humilham. E falam que o erro da ditadura foi ter matado pouco e que um negro pesa sete arrobas.

Eu já disse antes, mas não custa repetir: está tudo péssimo, mas irá piorar e não vejo nenhuma esperança a curto prazo. Porque toda sociedade é uma fábrica de sofrimento. E eu acredito tanto nisso que tenho essa frase tatuada no braço.

Se preparem e no processo deixem de ser burros. Aprendam a vencer eleições e não se “o substantivo colocado na frase está de acordo com as normas sociais emancipatórias do processo de desconstrução normativa que produzem bloqueios comportamentais socialmente aceitos.”

Eu sou de esquerda e não me importo em ficar de fora do governo, desde que o governo eleito olhe para mim. Não importa quem seja, não acredito em salvador da pátria. Deixemos Jesus vindo do céu num cavalo branco para os cristãos. Fiquemos com qualquer candidato que garanta três refeições ao dia, educação e saúde, políticas públicas para os mais necessitados. Sim, estou falando, obviamente, do Haddad.

No processo ele terá que vender a alma para o Capeta que pode ser qualquer um, desde o Eduardo Cunha até qualquer outro cretino que sente a bunda na presidência da Câmara dos Deputados, e não conseguirá se manter puro ideologicamente. Não me importo.

Deixem a pureza para quem tem esse direito. E que os políticos se afundem na merda e me tragam de lá aquilo que precisamos.

Participe da conversa! 5 comentários

  1. Sobre ser de esquerda, acertou ao classificá-la como um devir, mas este devir não é olhar para uma pessoa e se compadecer, moralmente, pela condição dela. Neste sentido, estaria trazendo um fator externo imutável e absoluto à relação entre vocês dois para regular esta relação. Isto é, você e a pessoa tem uma relação de convívio que é dinâmico pela própria necessidade de ambos, seja por cooperação, concorrência ou apenas proximidade. Compadecer-se de alguém é trazer um juízo moral externo, independente desta relação, e aplicá-lo como um fator fixo, imutável, para regular esta relação, que não é nem fixa, nem imutável.
    Deixando as complicações de lado, ser de esquerda é adaptar-se às situações buscando preservar as relações entre os seres humanos, porque a base de qualquer sociedade é a preservação das relações entre as pessoas. Ser de direita, conservador, é rejeitar a adaptação a qualquer transformação, porque o que vale é a fixidez de um determinado fator, buscando sempre padronizar esta relação conforme este fator imutável. Quem é de esquerda sabe que é impossível manter a fixidez e quanto maior o esforço para fixar um padrão nas relações, maior é o rompimento com esta fixidez, podendo levar até ao próprio esfacelamento da sociedade.

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  2. não veremos essa sociedade tão cedo. ainda pode piorar e muito. e a grande maioria vai continuar trabalhando muito e ganhando pouco e parcelando tudo pra comprar e vai continuar achando que isso é uma vida boa. e o pior criando seus filhos com essa mesma história.

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  3. Você se cansou da política partidária – isto já é um bom começo – eu não vejo futuro nela, salientando que este futuro não é pra já, mas sim como resultado de um desdobramento da estrutura política: idéias, posicionamentos, participações, direções … Os problemas do futuro não vão ser mais nacionais, porém de ordem geral, o que necessitarão diretrizes mais amplas. Quanto à esquerda, esta deve ser respeitada por estar – teoricamente falando – em posição de vanguarda. Até hoje é a esquerda que conta direitinho o que está passando no país. Um abraço da Mariluz.

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