Eu sei o quanto todos nós estamos cansados de falar em política. Desde 2014 o país mergulhou em uma espiral profunda de problemas que não produziram nenhum efeito positivo desde então. Eu sei que é exigir demais, e que ninguém tem essa obrigação, mas se tivéssemos ensinado Habermas a nossas crianças no ensino médio, elas saberiam o resultado de brincar com as instituições de um país. Mas quem, além de mim, apresenta Habermas para os adolescentes?

Aliás, salvo raríssimas exceções, qual a escola brasileira que tem preparado seu aluno para a vida de verdade? Quantas horas preciosas nossos alunos passam sentados decorando fórmulas matemáticas sem aprender a negociar taxa de juros em um banco? Recitam em coro as partes de uma célula, mas não sabem o que acontece com seu quintal quando jogam óleo de cozinha pelo ralo da pia. E quantos saem do ensino médio falando do tal “mito da caverna“, sem nunca, jamais, ter ouvido falar de um tal de Foucault lhes dizendo que fábricas, hospitais, prisões e escolas funcionam de forma quase idêntica?

Sei dessas coisas todas, mesmo sem ter tido que pesquisar horas e horas entre artigos, livros e sites porque Bolsonaro está em primeiro lugar entre os elegíveis nas pesquisas para presidente. E, ao contrário do dito popular, há entre os eleitores de Bolsonaro gente que passou vários anos estudando Deus sabe lá o que. Segundo pesquisa realizada pelo Ibope em 20 de agosto, o eleitorado de Bolsonaro é composto por gente com ensino superior e com renda de cinco salários mínimos. Ou seja, a “elite” de nosso país. Mas que fique claro, eu defendo que gente escrota se candidate de síndico do prédio a presidência da república. Democracia é isso – mas não somente isso – inclusive. Minha cabeça explode não com a candidatura de Bolsonaro, mas sim com a quantidade de brasileiros que não faz a mínima ideia do que significa uma democracia de fato.

Minha cabeça explode quando volto a folhear gente como Darcy Ribeiro e Gilberto Freyre, que mesmo com projetos sociológicos e antropológicos tão distintos, me ajuda a compreender tanto sobre meu país, que eu deveria colocar uma estátua de ambos na sala de casa. E explode porque somente enfiando a cabeça em nossa dolorosa e violenta história é que somos encorajados a compreender que uma eventual vitória de Bolsonaro tem que ser colocada na conta não do candidato que precisa de cola para debater com outros candidatos. A culpa é, em parte, de nossa elite cultural, pretensamente esclarecida.

Aonde estão nossos intelectuais que não saem dos escritórios? Quando foi a última vez que Renato Janine Ribeiro subiu o morro? Vladimir Saflate já quis tentar a sorte na política, mas e ai, quando foi que ele trocou ideia com os futuros fogueteiros do PCC? Marcia Tiburi quer ser governadora do Rio de Janeiro, como se o Rio de Janeiro já não fosse castigado demais. Verdade seja dita: as universidades públicas e particulares estão loteadas de intelectuais de merda, produzindo artigos inúteis em escala fabril para se apresentarem em congressos e ficarem massageando os egos uns dos outros até chegarem ao orgasmo.

Enquanto tem gente paga pela CAPES/CNPq para discutir nota de rodapé em texto publicado no século 12, o mundo está uma desgraça, indo de mal a pior, e as cabeças pensantes de nosso tempo estão cagando e andando para isso, desde que a bolsa de estudos que banca o cara por um ano em Paris esteja garantida. O Brasil pegando fogo e Leandro Karnal sendo pago para lecionar sobre “o lado oculto do dinheiro” e querendo sair na foto como intelectual guru de costumes. Vamos ser francos, “lado oculto do dinheiro” parece título de vídeo do horroroso Felipe Castanhari, não disciplina de pós graduação.

O povo não tem obrigação nenhuma em saber aquilo que não lhe foi ensinado. A vida é pesada demais para a imensa maioria do povo brasileiro, e não da tempo de, sozinho, colocar comida na mesa e aprender sobre filosofia política, antropologia, ciência sociais. Alguém tem que ensinar esses caras, e alguns até querem aprender! Repito, boa parte do eleitorado de Bolsonaro entrou e saiu da universidade. E lá, aprendeu o que? A ganhar dinheiro, e o que mais?

Sei que vou dar um tiro no pé e vou ser xingado pelos meus pares, mas se é pra bancar pesquisa na área de humanas que não produz porra nenhuma de relevante para a nossa sociedade, é bom que cortem mesmo as verbas. Se esse bando de gente trilíngue e qualificadíssima não se importa em estudar nada de realmente relevante para a realidade concreta de nosso país, não vejo nenhum motivo para bancar com dinheiro público essas pesquisas. Que comecem a pensar em outras formas de se satisfazerem intelectualmente.

Porque as razões de Bolsonaro provavelmente levar a presidência esse ano é alta, e os motivos para isso são muitos. O texto aqui foi só para cutucar com vara curta esse bando de intelectuais insossos que vomitam arrogância e erudição sem dialogar com o povo. O resultado está ai.

Ou se abandona o academicês, começa a engolir plural, errar na concordância, falar gíria, ou a academia nunca irá se comunicar com quem mais precisa: o povo.

Ai fodeu, e os idiotas na política agradecem.

Participe da conversa! 7 comentários

  1. Boa noite,
    belo texto,

    essa ideia fazia com que eu fosse chamado de uma serie de adjetivos na faculdade…

    Curtido por 1 pessoa

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    • Eu to sendo chamado de imbecil pra baixo lá na página Pense, é Grátis.
      Sou de esquerda, milito há mais de dez anos pela esquerda e as piores ofensas que me dirigem vem da esquerda…

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      Responder
  2. Mino: o Judiciário foi o primeiro motor do Golpe – https://www.conversaafiada.com.br/brasil/mino-o-judiciario-foi-o-primeiro-motor-do-golpe

    ♡ Sabe quais foram os ÚNICOS que NUNCA votaram contra o povo? ♡

    PT, PCdoB e PCO > Estes NUNCA nos traíram!!

    Já sabe em quem deve votar então, né não?
    #LulaéCandidato #LULA2018 #LULALIVRE
    #SEGUEOLIDER

    Curtido por 1 pessoa

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  3. Seu texto chega mesmo emocionar pela precisão de suas considerações, mesmo sendo um texto simples ainda que contundente.
    Concordo integralmente o que você escreveu.
    Vejo-me exatamente na posição que você estabeleceu com esse grupo de pseudo intelectuais que se masturbam uns aos outros. Estive nesta posição arrogante por muitos anos.
    Somente fui entender um pouco sobre as verdadeiras coisas relevantes da vida e da sociedade a partir do princípio da década de 90. Mas precisamente meados da década de 90.
    De alguns anos para cá percebi que lutar, mesmo que seja apenas com a minha caneta, por democracia (entendida como poder do Povo e não como poder do demo, como atualmente) a minha competência e a minha possibilidade.
    Sinto-me de fato propenso a aceitar outros desafios mais práticos e mesmo mais pragmáticos sem contudo saber como posso fazê-lo.
    Conviver diariamente no piso das fábricas, voltar a um passado mais distante onde lá estive com frequência e permanência, sentir junto com o operário suas carências e suas criticidades e de fato entender o que são as tais necessidades básicas já definidas há décadas por Maslow.
    Se eu não acredito pelo menos espero e algum dia o ser humano poderá ser de fato conduzido e guiado pelo poder de suas maiorias não manipuladas. É uma esperança, uma utopia.
    Parabéns pelo seu texto e agradeço muito por ter podido ter acesso ao mesmo.
    Tratarei de compartilhar. Agradeço de novo.
    Amor, compaixão, solidariedade.
    Felicidade. Sempre.

    Receba as bênçãos multiversais.

    Gustavo Horta

    Curtir

    Responder
  4. Republicou isso em Gustavo Hortae comentado:
    Seu texto chega mesmo emocionar pela precisão de suas considerações, mesmo sendo um texto simples ainda que contundente.
    Concordo integralmente o que você escreveu.
    Vejo-me exatamente na posição que você estabeleceu com esse grupo de pseudo intelectuais que se masturbam uns aos outros. Estive nesta posição arrogante por muitos anos.
    Somente fui entender um pouco sobre as verdadeiras coisas relevantes da vida e da sociedade a partir do princípio da década de 90. Mas precisamente meados da década de 90.
    De alguns anos para cá percebi que lutar, mesmo que seja apenas com a minha caneta, por democracia (entendida como poder do Povo e não como poder do demo, como atualmente) a minha competência e a minha possibilidade.
    Sinto-me de fato propenso a aceitar outros desafios mais práticos e mesmo mais pragmáticos sem contudo saber como posso fazê-lo.
    Conviver diariamente no piso das fábricas, voltar a um passado mais distante onde lá estive com frequência e permanência, sentir junto com o operário suas carências e suas criticidades e de fato entender o que são as tais necessidades básicas já definidas há décadas por Maslow.
    Se eu não acredito pelo menos espero e algum dia o ser humano poderá ser de fato conduzido e guiado pelo poder de suas maiorias não manipuladas. É uma esperança, uma utopia.
    Parabéns pelo seu texto e agradeço muito por ter podido ter acesso ao mesmo.
    Tratarei de compartilhar. Agradeço de novo.
    Amor, compaixão, solidariedade.
    Felicidade. Sempre.

    Receba as bênçãos multiversais.

    Gustavo Horta

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