Nesta segunda feira (17/09) passei por uma experiência bastante ruim. Enquanto ia a escola onde leciono, percebi uma confusão na praça da cidade em que moro (Campo Bom/RS) e percebi que um aluno meu havia tido o celular roubado. Persegui o rapaz que fez o roubo, primeiro de carro, em seguida a pé, o alcancei junto com outras pessoas e fiz aquilo que achei correto. Primeiro o convenci a devolver o celular, depois pedi que chamassem a polícia. Quando o rapaz tentou fugir, o imobilizei e tive o cuidado de não fazer mais força que o necessário. Dizia ao rapaz o tempo todo que não tentasse a fuga porque se ele escapasse de mim, certamente não escaparia da fúria das outras pessoas e poderia acabar sendo gravemente ferido. O rapaz por sua vez estava desesperado, primeiro por ter sido preso e segundo por estar devendo R$ 650,00 ao tráfico. E a lei do cão é essa: ou paga ou morre. É pior que ficar devendo ao banco, porque este apenas te escraviza.

Disto seguiram-se três horas na delegacia formalizando o Boletim de Ocorrência na presença do meu aluno, da vítima, dos policiais que fizeram a prisão, do advogado que assinou a documentação como representante do rapaz e do escrivão. Nessas três horas acabei conhecendo o investigador e o delegado, e também a mãe do rapaz que chorava inconsolável. Toda essa introdução é porque não demorou muito, percebi o óbvio: eu estava em um reduto de eleitores do Coiso e nesses tempos de eleição, esta é a conversa na boca do povo. Minha surpresa foi que, ao contrário do senso comum, os policiais que conversaram comigo durante o tempo em que lá estive se solidarizaram com o bandido, sem amenizar sua culpa. Sem essa conversa mole de bandido bom é bandido morto, mas que os Direitos Humanos são importantes para todos os humanos, inclusive para o bandido, mas não somente para ele. Afirmaram que sim, é muito triste um rapaz roubar o seu celular para pagar o tráfico. Sabem também que o rapaz, embora culpado, é fruto de um sistema social profundamente desigual. Sabem que a criminalidade está associada a péssima educação, falta de oportunidades, falta de estrutura familiar. Por outro lado, apesar de saberem tudo isso, estão vendo seus colegas de trabalho morrerem como moscas, terem medo de andarem fardados, a falta de investimento em segurança. É aquele caso típico da pessoa que está certa nas premissas, porém equivocada quanto a conclusão.

Me caiu a ficha: os eleitores do Coiso são, em sua maioria, pessoas conscientes e esclarecidas, com dramas, angústias, anseios e pautas bastante claras e específicas, mas que não estiveram participando do debate público nos últimos anos. As razões para isso são muitas, mas a esquerda tem sua parcela de culpa e não é pouca, creio. Os anos de bonança do PT foram marcados pela exclusão da direita no debate público. Por muitos anos a direita ficou restrita ao gueto, e o debate público, restrito ao clube petista. Embora veículos de comunicação, no Brasil, sempre estiveram alinhados a direita, quem falava e ainda costuma falar nestes veículos, são os horrorosos Marco Antonio Villa, Miriam Leitão, Merval Pereira & etc. E esses insossos não representam a população, seja de esquerda, seja de direita: representam o mercado financeiro. Falam para o João Amoedo, não para a pessoa sem nome, que é caixa do Itaú.

As redes sociais acabaram com o filtro entre sua voz e o megafone. É possível falar para um número inimaginável de pessoas via Twitter ou Facebook e inevitavelmente neste processo você acaba trombando com um ou outro que concorda com você. Neste cenário o sentimento de grupo é muito importante e Axel Honneth explica porque.

Honneth faz parte da terceira geração da Teoria Crítica – também chamada de Escola de Frankfurt – e foi aluno de Habermas e desde 2001, é diretor do Institut für Sozialforschung (Instituto para Pesquisa Social) da Universidade de Frankfurt (oficialmente, Johann Wolfgang Goethe-Universität Frankfurt am Main, em português: Universidade Johann Wolfgang Goethe de Frankfurt), instituição na qual surgiu a chamada Escola de Frankfurt. Sua obra mais famosa no Brasil talvez seja Luta por Reconhecimento – A gramática moral dos conflitos sociais. 

Embora uma leitura densa, a tese central de Luta por Reconhecimento é a de que o ser humano passa por três processos para se reconhecer inteiramente como ser humano e cidadão, e que sempre que algum destes três processos é desrespeitado, o ser humano se vê motivado para engajar-se em algum grupo e lutar por aquilo que acredita ser seu direito. A obra em si tem como fundamento uma vasta tradição da filosofia e da psicanálise que vai de Hegel a Mead e Winicott, de modo que não dá pra refazer os argumentos todos aqui, em poucas linhas. Mas dá pra dizer quais são os três processos – ou, como Honneth os chama, as três esferas do reconhecimento. São elas as esferas do amor, do direito e da estima social.

A esfera do amor possui seu grau de complexidade para ser compreendida, mas para este texto basta dizer que ela tem seu papel na formação da autoestima do sujeito e está vinculada a relação mãe-filh@ ou pai-filh@. A segunda esfera é a do direito, que teria a função de fazer o sujeito sentir-se igual a outras pessoas ao perceber que as leis de sua comunidade são as mesmas para todos. A terceira esfera, da estima social, é quando o sujeito encontra um grupo para chamar de seu, que o aceita, e percebe que neste grupo seu valor como ser humano é único, e portanto, ele deixa de ser um um número, um desconhecido, e se torna alguém com valor impagável.

Que no Brasil a sociedade em geral tenha a percepção de que nossas leis não se aplicam a quem não tem grana, é óbvio. Por isso todo mundo parece estar engajado em alguma pauta referente a como melhorar o país. Com todos os avanços inegáveis dos governos petistas, muitas perguntas pairam no ar: porque a reforma agrária não avançou?; porque o sistema de educação básica não foi transformado?; porque a violência urbana continuou crescendo?; porque o sistema político não foi reformulado?; porque o sistema tributário não foi repensado?; e uma pergunta especial, aquela que talvez seja a pergunta que mais incomoda a esquerda, em especial os petistas nestes últimos anos: porque o PMDB foi chamado para governar? Trocando em miúdos, quem dorme com serpente?

A resposta, com maior ou menor grau de complexidade pode se resumir a falta de legislação que de fato proponha reformas e dê a população pobre e carente, maior acesso a direitos presentes a população rica e privilegiada.

Abre parênteses: Rico e privilegiado é aquele cara que vive como rentista, tem alguns milhões disponíveis na sua conta e garantiu a vida dos tataranetos. Você com seu apartamento avaliado em um milhão e com um Ford Ranger 2017 é um classe média que não gosta de se ver assim. Fecha parênteses.

Leis, ou qualquer um de seus muitos equivalentes no Brasil – como PEC ou Medida Provisória – que proponham reformas profundas em setores importantes. Não neguemos que, embora a imprensa tenha um papel fundamental no Golpe de 2016, o PT, no papel de esquerda no governo, cometeu uma série longa de erros dos quais a cúpula do partido é ciente, em maior ou menor grau.

O desrespeito no campo do Direito foi capitalizado em grupos de esquerda que uniram-se e formaram ONG’s, coletivos, veículos alternativos de imprensa é até mesmo um outro partido, o PSOL. Acreditar que o mesmo não ocorreria na direita, agora podendo se conectar via redes sociais, seria ingenuidade. O fizeram por outras vias; Think Tank, chapas para DA’s universitários, páginas no Facebook. Criaram para si mesmos novos símbolos de aceitação, novos valores morais e éticos ou aderiram aos que já existiam. E não se engane, não há nada de errado nisso, ao contrário.

Uma vez unidos, o reconhecimento pela via da estima social cria um sentimento poderoso. Se para a esquerda o rapaz é um excêntrico por citar Montesquieu na conversa do bar, para a direita ele é um sábio erudito. Para a esquerda ele é um dinossauro de outra época por se vestir de modo estranho, para a direita ele é alguém que quer trazer de volta aquilo de bom que existia no passado.

Talvez você diga algo como: “mas Rafael, eles estão errados nisto, nisto e naquilo.” E eu respondo: o texto não fala de certo ou errado, fala da percepção e do sentimento gerado. E então vem o desrespeito.

Assim que a esquerda começa a desrespeitar os valores que a direita tem ou que construiu recentemente, o grupo une-se mais, e parte para o conflito social afirmando, corretamente, que seus valores precisam ser escutados e debatidos. Não se silencia ninguém, mas antes ouve-se e debate sobre. Então surge o Coiso.

Ele se vende como uma representação destes valores da direita, os ouve e os acolhe. Mesmo os cretinos que hackearam e mudaram o nome da página Mulheres contra o Bolsonaro, foram reconhecidos pelo Coiso que postou uma foto agradecendo o grupo, então nomeado, Mulheres com Bolsonaro. O Coiso foi visto e percebido pelo grupo como alguém que acolhe e lidera um grupo que passou muito tempo sem voz entre si. E mais uma vez, não confunda o grande empresário, que sempre teve voz nesse país desigual, com o vendedor de pipoca que é assaltado uma vez a cada seis meses.

Claro que o texto não explica toda a complexidade do processo no qual vivemos. Seria impossível fazê-lo em meia dúzia de laudas. O texto apenas aponta para o fato de que o pobre de direita não é um idiota, e tem sim coração, e que seu sentimento forte de grupo foi gerado por sentirem-se desrespeitados pelos grupos de esquerda. A degeneração pelo qual passaram, indo de direita, para direita fascista, será tema do texto de segunda-feira.

Por hora proponho a reflexão sobre como este processo dialético é capaz de produzir o seu contrário e se é possível, no curto prazo, amenizarmos isso. E aqui, a resposta precisa ser sim, ou então fudeu.

OBS. O leitor@ mais atento deve ter sacado que o texto pode servir para ambos os lados trocando alguns termos e nomes. Aonde está escrito direita, leia esquerda e vice-versa e aonde está escrito Coiso, leia Lulindo.

OBS 2. #EleNão

 

 

 

Participe da conversa! 4 comentários

  1. Um dos melhores textos que li sobre o assunto! Obrigada!!

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  2. Excelente comentário. O melhor que podemos fazer, neste momento intenso, é olhar com honesta visão para o estrago que produzimos enquanto cidadão “dono da verdade”. A verdade, na vida real, pode ser uma esquina (como a Democrática de Porto Alegre ou o Café Aquário, em Pelotas), uma estrada bonita ou o abismo sob nossos pés. Um país como o nosso, não pode se dar ao luxo de discutir o fascismo alemão, como sendo de esquerda; ou, a esquerda, como a que temos, agir como a direita e, por absurdo que pareça, sufocando-a. Não sei mais o que dizer …

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