No último texto argumentei que tristemente a esquerda ajudou a formar o Coiso. Levei algumas pedradas nas redes sociais por afirmar o que afirmo, tanto da esquerda como da direita. De qualquer modo prossigamos e tentemos compreender como se deu a passagem da direita para a direita fascista.

Comecemos pelo óbvio que sempre precisa ser dito, ainda mais em tempos de eleição – que faz rima com #elenão – quando os ânimos estão a flor da pele e a raiva mais presente do que nunca: o fascismo é uma degeneração política presente em regimes a esquerda ou a direita. Não há, conceitualmente, nenhuma restrição a nenhum dos dois sobre aderir ou não a formas fascistas de se fazer política, e isso é importante dizer porque cumpre uma função pedagógica, a de esclarecer conceitos. E segundo porque me irrita a presunção que a esquerda tem em ser virtuosa. Pois bem, ser de esquerda não é uma virtude e fim. Pode ser um sentimento como afirma Deleuze, uma expressão política como dizem ser os marxistas ou mesmo um projeto político administrativo como afirmam militantes de partidos políticos. Mas não é uma virtude.

Dito isto, prossigamos.

A direita, em minha visão, permaneceu no gueto por algum tempo durante o começo dos anos 2000, e isso alimentou alguns ressentimentos poderosos neste campo político. Eu acredito conseguir explicar esse fenômeno através das ferramentas teóricas que Axel Honneth nos oferece, como repito, fiz no último texto. Já para explicar essa passagem para o fascismo, acredito que Theodor Adorno seria o filósofo mais indicado.

Adorno foi professor de Habermas que foi professor de Honneth e com esses três filósofos nós temos representantes da primeira, segunda e terceira geração da Teoria Crítica, também chamada como Escola de Frankfurt.

Comecemos então.

Habermas chama a atenção de Adorno, após este ler alguns de seus textos polêmicos de Habermas publicados contra Heidegger no FAZ (Frankfurter Allgemeine Zeitung) bem como alguns textos com forte embasamento sociológico no Mercur – revista alemã. Então, em 1956 é contratado por Adorno como seu assistente e inicia seu primeiro projeto, um prefácio para a pesquisa Student und Politik (Estudante e Política).

Nestes anos como assistente e aluno de Adorno, Habermas entra em conflito com Max Horkheimer (com quem Adorno publicou em 1947, Dialética do Esclarecimento, obra escrita entre 1942 e 1944). Os motivos de seu desentendimento, como ficam expressos em correspondência assinada por Horkheimer em 27 de setembro de 1959, endereçada a Adorno, apontam sua “negatividade crítica, tanto instrutivas sobre o espírito do Instituo de Pesquisa Social, em Frankfurt, quanto, em sua – na perspectiva de hoje – injustiça horripilante”.

Horkheimer ainda pontua o talento e inteligência de Habermas, porém, incomoda-o  o fato de ele endossar escritos que tomavam como fato o postulado de que a burguesia seria incapaz de permanecer por muito tempo a classe social dominante, admitindo a possibilidade real de uma revolução proletária em países industrializados. Uma ideia de fundamentos marxistas, que já havia sido questionada e abandonada por Horkheimer, que aponta um outro modelo a ser defendido: o de que seriam os restos da civilização burguesa que deveriam ser resguardados, não o modelo revolucionário, responsável por aproximar o socialismo com o nacional socialismo na Alemanha.

Dito de outra maneira, Habermas aposta que há, espalhado na sociedade – em especial na sociedade típica burguesa -, germes potencialmente revolucionários capazes de produzir algum tipo de revolução, ou ao menos, algum tipo de avanço social, como parece ficar claro em sua trajetória intelectual que se inicia em 1962 com a publicação de Mudança estrutural da esfera pública até, por exemplo, Direito e Democracia: entre facticidade e validade, de 1992. Adorno – e também Horkheimer – apontam para outra direção como parece ficar claro na obra já citada, Dialética do Esclarecimento. Aqui o diagnóstico feito por Adorno ao escrever sobre cultura de massa e indústria cultura – temas amplos que ficarão para outro texto – é o de que a revolução jamais será concretizada porque a sociedade burguesa fracassou em produzir aquilo que era necessário para que isso acontecesse.

A tese central de Adorno nestes escritos seria sobre o surgimento daquilo que ele chama de capitalismo administrado, que de modo resumido podemos compreender como um modelo capitalista de sociedade no qual o Estado intervém e estabiliza a economia em casos de crise. Pensou nas crises de 1929 e na de 2008? Acertou. Este modelo é sustentado através de um tipo novo de método ideológico, feito a partir de uma crítica as teses de Marx. Diz Adorno que “Na indústria [cultural], o indivíduo é ilusório não apenas por causa da padronização do modo de produção Ele [o indivíduo] só é tolerado na medida em que sua identidade incondicional com o universal está fora de questão” (Adorno e Horkheimer, 1985, p. 144), o que significa, resumidamente, que a formação de identidade e subjetividade do indivíduo em nossa sociedade só é aceita porque ele recebe os estímulos que vêm da publicidade, da propaganda, dos filmes, da música, do marketing e etc, de modo positivo, assertivo. Dito de outra forma podemos colocar a citação de Adorno em forma de pergunta: porque você deseja o que deseja? Porque possui as metas e sonhos que possui? Porque você acha bonito o que acha bonito?

Já que estamos fazendo algumas perguntas incômodas, porque não ir mais fundo? Porque certos corpos lhe deixam excitado e outros não? Porque, coincidentemente, os corpos que te excitam, muito provavelmente sãos os mesmos que excitam 90% dos outros brasileiros? Porque as influências que você recebeu estão padronizadas e massificadas, de modo que alcançaram milhões de outros brasileiros, e é por isso que, ao menos nisso, estamos mais ou menos de acordo. Sonhamos todos coisas muito parecidas, assim como também desejamos coisas muito parecidas: o carro da fábrica tal, o tênis da marca xis, a casa no bairro ípsilon, o corpo do fulano ou fulana. Todo esse raciocínio é encontrado de modo bastante conciso em outra obra de Adorno, Minima moralia, quando ele diz que “em muitas pessoas já é um descaramento dizerem ‘Eu'” (Adorno e Horkheimer, 1993, p. 42). Assim o é, porque a pessoa simplesmente ignora que aquilo que ela atribui como adjetivos de si, sonhos para si, metas a serem alcançadas por si, não são suas, mas foram criadas em escritórios de marketing, propaganda & publicidade e então lhes foi entregue de mão beijada, gratuitamente via rádio, TV, cinema, jornal, revista, internet. É complexo, eu sei, mas por favor, não desista e acompanhe o raciocínio: o ponto aqui é muito importante.

O que Adorno está apontando é para o fato de que nossa ideia de “Eu” – ou seja, nossa autoimagem – é formada e construída culturalmente, mas por sua vez, a própria cultura se tornou uma indústria que nos dá poucas opções de como nos formaremos como indivíduos. Seria mais ou menos assim: para construir uma casa, é necessário dezenas de ferramentas e materiais. Se não os tiver todos, talvez você construa uma casa, mas uma casa com problemas talvez. Se faltar areia para o concreto, talvez ele rache. Se quando for pintar a casa só houver tinta da cor branca, a casa só terá essa cor. Pois bem, ocorre o mesmo com o indivíduo e por isso somos rachados e temos a mesma cor. A cultura vista como indústria nos dá sempre as mesmas ferramentas para nos formamos como indivíduos, e assim, não conseguimos atingir nunca a autonomia necessária para, por exemplo, conseguirmos melhorar de fato o modelo social no qual vivemos, e isto explicaria talvez porque em 2018 ainda há tráfico humano, prostituição infantil, escravidão, fome, miséria e assassinato enquanto nos preocupamos com qual Vingador sobreviveu ao ataque de Thanos no último filme da franquia.

E onde eu quero chegar com tudo isso? No fato de que essa garotada que nasceu no fim dos anos 90 e começo dos anos 2000 foi bombardeado com os casos de corrupção do PT. Uma rápida busca no site da revista Veja – que está a beira da falência – nos mostra que quando você busca por Mensalão aparece 17.900 resultados. No site da Folha de São Paulo, 32.411 resultados. Convenhamos que é muita coisa. Quando você joga o termo Pasta Rosa no site da Veja, entretanto, consegue 482 resultados; no da Folha, 363. Talvez você nem saiba o que é Pasta Rosa, então explico: em fevereiro de 1996, durante o governo FHC/PSDB, a Procuradoria-Geral da República resolveu arquivar definitivamente os processos da pasta rosa. Era uma alusão à pasta com documentos citando doações ilegais de banqueiros para campanhas eleitorais de políticos da base de sustentação do governo. Naquele tempo, o procurador-geral, Geraldo Brindeiro, ficou conhecido pela alcunha de “engavetador-geral da República”. Mas busquemos um caso de corrupção do governo PSDB mais famoso, o Tremsalão: nos arquivos online da Veja temos 9 resultados; nos arquivos online da Folha 22 resultados. Peguemos outro ainda, o Mensalão Tucano: no site da Veja, 1.830 menções; no da Folha, 500.

Convenhamos que há uma diferença significativa entre 17.900 resultados para 9 ou mesmo 1.830. Ou entre 32.411 resultados para 22 e 500. Quero que você pense no porque dessa discrepância e aqui, pelo amor de Odin, mantenha a calma: não estou defendendo o PT, apenas demonstrando que existe uma diferença no modo como a imprensa trata casos de corrupção nos dois principais partidos do país.

Agora, mais calmo, pense em como isso contribuiu para que a sociedade brasileira passasse os últimos quase vinte anos escutando, infinita e diariamente, em todos os canais de comunicação que o PT, e por tabela, a esquerda, é o câncer do país a ser extirpado. Pense nisso tendo em vista o que acabou de aprender com Adorno e você compreenderá, quase que necessariamente, que a população foi instigada, conscientemente ou não, a ter um inimigo a ser combatido. Os muitos medos difusos e confusos que temos – como o medo do bandido, de perder o emprego para o imigrante, de que nossos filhos se droguem, que não consigamos pagar nossas contas e etc – acaba sendo concentrado na figura do PT/esquerda. E quando se tem um inimigo a ser combatido em nome de uma causa nobre, medidas drásticas começam a se tornar atraentes. Todo fascismo começa com uma ideia nobre, porque ninguém consegue admitir que é mau e pronto.

A direita a qual a esquerda se opõe, faz essa transição, em minha análise, a partir do momento em que, no decorrer dos anos, tem a sua disposição através da indústria cultural brasileira apenas uma ferramenta disponível: a de que a culpa das desgraças da população é o PT e a esquerda. Aproveitando então este sentimento pulsante, dezenas de “jornalistas” e “colunistas” passaram a fazer dinheiro alimentando a paranoia crescente. Gente que vai do Reinaldo Azevedo ou Rodrigo Constantino, passando por Marco Antonio Villa ou Miriam Leitão. O próximo passo foi sair da mídia e migrar para a política: João Dória se elegeu na base do antipetismo/antiesquerdismo; Fernando Holyday, idem. Este ano Kim Kataguiri e Arthur do Val farão o mesmo. E, desgraças das desgraças, talvez o Coiso também.

Mais uma vez, não espero arrotar em poucas linhas a resposta final para um cenário tão complexo. Nem afirmar que nada mais sobre o assunto precisa ser dito. Pretendi trazer um filósofo muito interessante, difícil e importante para que você o conheça e, através dele, apresentar uma leitura de nossa sociedade.

Se consegui ou não, abra a discussão nos comentários e vejamos o que sai.

PS. Me adianto àqueles que me xingarão a direita ou a esquerda: com vocês já não me importo. Vocês passarão, eu passarinho, já dizia Mário Quintana.

Participe da conversa! 2 comentários

  1. Muito bom o teu comentário, a tua análise, o teu cuidado. Tens razão naquilo que considero de, para conseguir sucesso, é preciso construir o crime e a prova … Não vou, aqui, meter o bedelho nos tantos nomes dos catedráticos que construíram, em termos filosóficos, a direita e a esquerda, no decorrer do século XX … Mas, para mim, é preciso – por exemplo – quando tratamos do fascismo alemão, deixar de crer que eram os loucos da vez, que agiram desprovidos das cautelas necessárias, que o “grão-mestre” era uma besta, um manipulador de araque e todas as pencas que sabemos de antemão. Muito daquilo tem apenas um olhar de tico-tico quando, a bem de tudo, precisa de uma águia e, sem rodeios, de uma muito boa. Para vencer a ideologia germânica (no campo da guerra) foi preciso, no meu entender, que o Ocidente – através do EUA – se aliasse à URSS do não tão idiota Stálin (Staline etc.) pois, que, sozinho acabaria fritando literalmente os ovos do Gen. Douglas MacArthur, o homem do Pacífico. Portanto, meu caro, o teu comentário, para que pudesse ser compreendido nesta nossa terra de “tupiniquins”, sempre no meu entender, precisaria de uma aula de história. Digo isso, por enfrentar o barbarismo de uns tantos que vivem ao meu redor que, em termos históricos, são como uma boca desprovida de dentes. O que vemos hoje, no Brasil, é cômico e digno de uma gargalhada. A direita não tem nada daquela que existiu na Alemanha do Terceiro Reich e o principal expoente, é um pobre diabo, para não dizer pior. Mas, em contrapartida, a esquerda é – sempre para mim – ruim de dar pena. Creio que o partido comunista ianque, com sede em New York, totalmente legalizado, é bem mais coerente nos EUA, se comparado ao que existe por aqui … Enfim, para não te chatear, não creio que as coisas melhorem muito além daquilo que já tivemos … “Pão e circo” à moda da casa. Grato por leres (e podes sentar o pau, já tenho idade para dar de ombros, nasci no distante ano de 1949 e conheço de perto as muitas tragédias desta bela terra, que não é nossa e nunca o será). Grande Abraço!

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