A piada é péssima e famosa entre estudantes de filosofia (ao menos na Universidade onde me formei): porque marxistas gostam tanto de psicanálise? Porque só Freud salva Marx. Então ninguém ri, então eu explico.

Marx profetizou que da civilização burguesa a revolução proletária iria se concretizar. O motivo seria o fato de que o Capitalismo teria em sua estrutura de funcionamento uma série de contradições que o tornaria insustentável. As contradições nós vemos ao abrir o site de qualquer jornal: fome, miséria, monopólio e etc. Marx diz que assim que as condições materiais acontecessem (como por exemplo o acesso ao ensino) o Capitalismo viria por terra e a Socialismo naturalmente o sucederia. Claro que é bem mais complexo que isto, não me leve a mal, nem me xingue (ainda). Mas a ideia geral é esta.

Pois bem. Anos 1940 chegam, Adorno e Horkheimer, dois filósofos alemães que fundaram a Teoria Crítica – também chamada de Escola de Frankfurt – se olham num belo dia e se perguntam: “ok, mas porque diabos a Revolução não aconteceu ainda?” Ou ainda “como os russos fizeram sua revolução – aquela, de 1917 – e nós, alemães, com condições materiais muito superiores ainda não?”

A resposta vem em forma de livro, Dialética do Esclarecimento, que é um livro típico da Teoria Crítica. Ambos utilizam conceitos da filosofia, sociologia, psicanálise, história, artes, entre tantos outros campos e desenham uma nova forma de se compreender problemas de nossa época. Da psicanálise freudiana, Adorno e Horkheimer se aproveitam dos conceitos complexos como pulsões, sublimação, recalque, subjetivação, Ego, Id e Supergo. A tese-resposta para a não-revolução portanto se dá pela constatação de que nossa estrutura fálica (que nada tem a ver com o pinto dos rapazes, mas sim com a sensação de se sentir completo do indivíduo) é dada por muitos meios e ferramentas, entre eles a cultura. Em outras palavras, nossa cultura ocidental, brasileira do século 21 nos diz, antes de nascermos, aquilo que devemos ou não possuir para nos sentirmos completos enquanto sujeitos. Mais uma vez, a coisa aqui é muito complexa. Estou apresentando as linhas gerais.

A estrutura fálica do trabalhador operário faz dele alguém conservador e reacionário por excelência no momento em que este se vê imerso em uma cultura social que condena o questionamento, o protesto, a reivindicação com a mesma intensidade com que lhe causa medo e pavor de perder o pouco que possui e assim colocar em risco a segurança alimentar de sua família. Trocando em miúdos, o trabalhador de classe média é criado para ser gado, pastar sossegado e descansar a sombra nos dias santos de feriado e fins de semana. Assim sendo, assim ele é.

A revolução não vem portanto, não porque Marx estaria equivocado, mas porque estaria incompleto, ele não tinha a disposição elementos psicanalíticos para realizar sua análise política e social. Por isso os marxistas gostam de psicanálise. Porque assim não precisam passar a vergonha de admitir os erros do guru.

Abre parênteses: eu me refiro aos marxistas, que são esses imbecis que pouco leram de Marx e o trata como se Jesus fosse. Uma reunião do PSTU ou do PCO tem pouco de diferente da Igreja Universal do Reino de Deus. Marxianos são pesquisadores sérios e críticos de Marx e sempre que puder, os leia. Fecha parênteses.

Onde eu quero chegar com isso? Com o fato de que o #EleNão parece, grosso modo, ter ganhado ares de estrutura fálica para a esquerda, o que não me parece ruim. Se posicionar contra o Coiso faz parte do pacote e não dá pra se considerar de esquerda e ficar em cima do muro sobre nosso Hitlerzinho tropical. E é muito, mas muito importante social, histórica e politicamente, que este tenha sido um movimento iniciado por mulheres. Mas como o bonde da História anda pra frente, em breve o #EleNão começará a ser sequestrado por outros grupos, e isso também não é ruim.

Minha análise – e aqui não é uma crítica – é que a dimensão poderosa deste movimento talvez esteja nos causando uma cegueira momentânea sobre outros processos históricos no mínimo tão importantes quanto. E a seis dias da eleição mais importante desde a redemocratização, não podemos nos dar ao luxo de sermos cegos.

Refiro-me ao fato de que o #EleNão plantou algo muito poderoso que está dando frutos fantásticos e ainda darão por muitos anos, mas neste momento precisamos ser práticos e lembrar que política não se faz com o fígado. Não é com os nervos a flor da pele que as coisas costumam entrar nos trilhos, mas ao contrário. Para ficar em um exemplo simples, não foi berrando em cima de um carro de som que Lula escreveu a famosa “Carta ao povo brasileiro“, nem foi em um comício da CUT que ele apertou a mão de Paulo Maluf para eleger Fernando Haddad como prefeito de São Paulo. – e aqui nem falemos sobre Michel Temer ter sido aceito pelo PT como vice da Dilma para ganhar tempo de TV e palanque eleitoral. Em ambas as ocasiões ele precisou engolir décadas de discurso e de posicionamento e até ressentimento para, desta forma, ser eleito e governar. E odeie ou não o Lula, seu governo gerou milhões de empregos e produziu avanços inéditos para o país. Eu, e provavelmente você, preferimos um governo eficiente a um que se recusa a rever sua pureza ideológica por um motivo simples: o povo não come ideologia nem lê Marx, o povo come arroz, feijão, carne e salada e hoje, assiste Netflix.

O #EleNão é um movimento realmente lindo e importante, mas está nos fazendo ficar cegos para o fato de que ele não é mais importante do que definitivamente tirar o Coiso da presidência através do voto. Porque o que conta de verdade neste momento da História em que vivemos até o fim das eleições, eu preciso dizer, é voto na urna, não gente na rua. E sim, eu sei que gente na rua pode virar voto na rua. Mas sei que a esquerda que já incorporou o #EleNão como estrutura fálica parecer ter se aglomerado em torno de Haddad, que eu considero um excelente candidato, mas tem um índice de rejeição altíssimo e não para de crescer. E sabe porque não para de crescer? Porque se para ser de esquerda você precisa, necessariamente incorporar o #EleNão, do lado de lá, entre a direita, você precisa incorporar o antipetismo. E o antipetismo vem sendo inflamado pela imprensa há pelo menos uns doze anos com MUITA intensidade.

No fim do pleito, esquerda e direita já tem seus votos decididos, mas quem irá realmente ser o fio da navalha e escolher quem irá nos governar, será a imensa massa de pessoas anônimas nos pontos de ônibus do país que precisarão se decidir se incorporam o #EleNão ou o antipetismo; se incorporam um movimento realmente lindo, novo, poderoso e ainda difuso ou um movimento que tem história e dezenas de milhares de páginas escritas nos principais jornais do país ao longo de mais de uma década para usar de argumento.

O segundo tende a vencer. Apenas se eu estiver muito, mas muito errado, Haddad vence do Coiso num segundo turno, e as razões são científicas – porque filosofia é ciência brô. A esquerda deveria ter se unido em torno das candidaturas de um dos outros três candidatos, Manuela, Boulos ou Ciro, e dos três, mais uma vez, sem pensar com o fígado, mas com o cérebro, quem tinha mais condições de produzir esta união pelo percentual de intenção de votos e experiência política era Ciro Gomes, que foi traído e apunhalado pelo PT de um modo que todos sabemos através dos canais de comunicação alternativos. E também não nos enganemos com Ciro: ele tem seus muitos defeitos pessoais e políticos. Estou aqui fazendo cálculos políticos, não apologia partidária.

Agora nos resta esperar e torcer para tudo que eu escrevi esteja errado, porque se não estiver, quando a coisa piorar no governo do Coisoe vai piorar – já me adianto: não aceito suas desculpas. Você deve me ouvir agora, não quando a merda estourar e olhar no espelho retrovisor para se queixar.

E não desculpo porque sou um entre tantos assalariados fodidos, trabalhando sessenta horas por semana em três empregos diferentes (inclusive em duas profissões: professor e cozinheiro) e todo mês que começa aqui em casa é um Deus nos acuda entre eu e minha esposa para pagar as contas que vivem atrasando. Hoje eu já entendi que não posso contar com a ajuda da esquerda intelectualizada que pode se dar ao luxo de se manter pura ideologicamente, porque quando se revolta, geralmente as contas do mês estão quitadas e ai sobra tempo para ir fazer Sarau Fora Temer em Universidade ou reunião com vinho caro no apartamento do Gregório Duviver. Eu do meu lado só posso contar com os outros proletários como eu, que também estarão todos fodidos.

E a nós, restará se abraçar e chorar junto.

Participe da conversa! 8 comentários

  1. Meu Deus, já to chorando muito com esse texto desde já! Eu não poderia concordar mais, tanto que só posso compartilhar, sem nada mais a acrescentar.

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  2. Rafael, brilhante análise, não sei se você chegou a ler uma matéria do Intercept Brasil sobre uma entrevista feita à um candidato – derrotado – de extrema direita, onde a repórter simplesmente ignorou as posturas xenofóbicas e radicais do cidadão, partindo diretamente para propostas econômicas e outros temas que fugiam do alcance do sujeito.
    Penso que o ideal mesmo seria partir para o ataque das propostas ocas do Coiso, ao invés de se tentar ganhar a batalha moral, que é o campo que ele elegeu – mesmo que não tenham nenhuma atuação sólida ali.
    Desmontar o condomínio de interesses desconexos do Coiso, a fraqueza de suas votações no Congresso ao longo dos anos e o ataque recente aos direitos de quem trabalha.
    Ainda há muito chão para caminhar….caminhemos !

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  3. Boa noite! Não tenho ilusões … Dá uma olhada neste endereço e tires tuas conclusões: https://www.youtube.com/watch?v=BkJsLjMExEg. E, não penses que sou religioso, não sou! Ou, que estão todo sob o efeito de uma loucura administrada pelas “forças do mal” … E, a sorte está lançada!

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  4. Queria tanto poder discordar de suas reflexões, mas tudo que consigo fazer é concordar e temer esse nosso futuro. Quero e espero que o coiso não vença e que nem mesmo avance para o segundo turno porque tenho receio desses anônimos e da maneira como se deixam manobrar por quem fala mais alto.

    abraços

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  5. mandou muito bem!

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