Justiceiro, Zizek e a violência

Estreia essa semana a segunda temporada de Justiceiro, personagem do universo cinematográfico Marvel que mantém bastante de sua origem nos quadrinhos.

Frank Castle é um ex-soldado sofrendo com algo semelhante, porém pior, do que stress pós traumático não tanto pelo horror da guerra ou por matar desconhecidos sem motivo aparente. Sua dor vem do assassinato encomendado de sua família quando ele decide voltar a morar com ela.

Altamente capacitado por conta do seu treinamento tático e militar, Frank se arma e parte em busca de vingança contra os assassinos de sua família. O plot não é original, é um roteiro requentado que funciona porque é bem feito. A trilha sonora é maravilhosa – com destaque para Wish It Was True, de Whitte Buffalo, que estou escutando enquanto escrevo este texto – os enquadramentos são muito bem feitos, os diálogos convencem e o elenco todo entrega uma grande interpretação com Jon Bernthal no papel principal e Ebon Moss-Bachrach como Microchip, estando um degrau acima e em perfeita sintonia.

Para a segunda temporada espera-se que o conflito entre Castle e seu ex companheiro, Billy RussoRetalho nos quadrinhos – se resolva, não por causa de algum gancho de roteiro, mas porque a Disney está cancelando todos os produtos Marvel na Netflix para poder usar os mesmos personagens em seu canal de streaming, Disney+ que está para estrear em breve. Demolidor, Luke Cage e Punho de Ferro já foram cancelados, e muito provavelmente Justiceiro e Jessica Jones também o serão em breve.

Sendo assim, penso que além de curtir aquela que será a última temporada de uma das melhores séries feitas pela Netflix, podemos pensar juntos em alguns conceitos, como por exemplo, o que entendemos por violência.

Quer dizer, como podemos pensar a violência em termos filosóficos?

Zizek, filósofo esloveno, nos diz que nossa percepção da violência é a de algo que de certa forma e em determinado momento abala o que entendemos como sendo a ordem natural das coisas. Dar um murro ou um tiro em outra pessoa faz com que o mundo pareça menos normal, por assim dizer.

Este horror a violência seria fruto de nossa concepção – liberal – que nos faz abraçar a tolerância. A ideia de que temos e devemos que tolerar o outro, o diferente, o estrangeiro, com um detalhe perverso e contraditório nos dias de hoje: não raro a pessoa que se escandaliza com cenas de briga no estádio de futebol durante um jogo do São Paulo e Corinthians, acaba, por exemplo, defendendo a tortura.

O que escapa a visão comum é a de que para que as coisas ocorram normalmente, uma dose generosa de violência, esta invisível, ocorre. Violência social e financeira, por exemplo. Ou não é uma vida violenta trabalhar sem carteira assinada, 50 horas semanais em alguns casos, e ainda assim não pagar as contas do mês?

E nosso modelo de sociedade depende de certos tipos de violência, como a financeira já citada, ou a policial, administrada pelo Estado, para existir. Deve, sempre, a todo momento, existir um certo tipo de ameaça a nosso modelo de vida, de modo que essa violência seja justificada. Essas ameaças podem ser percebidas em frases como: “nem tudo lhe é permitido fazer” ou “trabalho dignifica o ser humano”.

Desta forma, todo comportamento que altere o estado normal das coisas – por normal eu me refiro a ter que trabalhar demais por pouco ou nada ou ainda assistir polícia, traficantes e milicianos matando gente da periferia – é visto como violência. É visto assim porque muda o estado natural das coisas.

Frank é violento não apenas porque espanca, mata e as vezes tortura seus inimigos, mas porque manda um recado fortíssimo que tanto esquerda quanto direita se escandalizam ao ouvir: é possível não depender do Estado nem de nenhuma corporação ou conjunto de leis, para conseguir algo próximo de justiça ou vingança.

É esse tipo de violência, que nos faz retornar ao modelo de homem proposto por Thomas Hobbes, filósofo inglês: o do homem como lobo do homem, que acabará por destruir a si próprio sem um Contrato Social, celebrado como algum tipo de constituição.

Portanto se você não concorda que Frank seja um herói, não concorda com seus métodos absurdamente violentos, ou que ele busque vingança ao invés de justiça, se pergunte o que você tem feito para lutar contra a violência estrutural que massacra nossa existência, e se, no curto ou longo prazo, você enxerga suas ações dando resultados concretos.

Porque o fato de vivermos como vivermos em 2018 mostra que tudo que já foi feito até aqui, obviamente fracassou.

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