Titans e o preconceito: o fã tem que acabar

Titans, série que estreou em janeiro na Netflix, faz parte de uma tentativa da DC Comics de consertar seu rumo no mercado de adaptações após alguns filmes questionáveis como Liga da Justiça e Batman vs Superman.

“Mas Rafael, eu AMEI Liga da Justiça e Batman vs Superman.”

Ótimo fera, mas teve um montão de gente que não curtiu e esse é o problema, porque quando você investe centenas de milhões de dólares, contratando entre outros profissionais, marqueteiros, publicitários e analistas de mercado para estudar seu público e lançar seu produto, você espera um resultado ótimo, não questionável. Você espera receber de volta o que a Disney/Marvel recebe: milhões de dinheiros E amor do público. Porque dinheiro, a DC/Warner já tem de monte. O que eles buscam, além da grana, é se posicionar no mercado cinematográfico e receber do público devoção e carinho.

E esse é o objetivo não é porque a empresa tem algo de inseguro e precisa de atenção, mas porque no momento em que você transforma público pagante em fã ensandecido, você garante sua fonte de receita por dez ou vinte anos. Tipo a Disney/Marvel, sacou?

De qualquer forma Titans funciona mais ou menos bem, com bons diálogos – embora o Robin/Dick Grayson mandar o Batman se foder seja puro fã service – e boas cenas de ação, bem coreografadas deixando claro para qualquer Punho de Ferro que quando você quer, você entrega um material de ação bom pra caramba.

Nem tudo são flores entretanto, e assim como no caso dos filmes citados, Titans também foi questionada ainda antes de ser lançada por conta da escalação da atriz negra Anna Diop para o papel de Estelar, uma personagem alienígena. A única diferença entre os dois casos é que aqui o problema é mentalidade imbecilizada e preconceituosa do fã de cultura pop. Porque é de uma tolice enorme a pessoa se achar no direito de não apenas dizer qual deve ser a cor de pele da atriz que interpreta uma personagem que, olha lá a ironia, é uma ALIENÍGENA. Nos quadrinhos a cor de pele da Estelar sequer existe entre os humanos. E embora a pele da personagem seja dourada, seus traços físicos são sim, de uma pessoa negra. Se liga:

Cabelos cacheados e volumosos e boca com lábios grossos. Sendo assim, qual afinal o problema em Anna Diop interpretá-la? O problema é o racismo estrutural presente na cultura. Parece-me que, ainda que de modo inconsciente, o público espera pessoas brancas para papéis de destaque e protagonismo, e a escalação de uma atriz negra quebra e frustra a expectativa desse mesmo público.

E isso nos faz lembrar de um Drops que lançamos semanas atrás quando comentamos do fã de cultura pop esperneando com as adaptações de desenhos antigos como She-ra e Carmem Sandiego. Dizem que infantilizaram os desenhos e outras bobagens do gênero, e muita gente entendeu que o fã de cultura pop é um eterno adolescente querendo se masturbar dia e noite assistindo desenhos na TV.

Nossa análise é um pouquinho mais embaixo.

Acreditamos que o público de cultura pop que nasceu no fim dos anos 90 e começo dos 00 se acostumou a ser tratado a pão de ló pela indústria, e a ter todos os seus desejos prontamente atendidos com o lançamento de muito material lhe satisfazendo ao mesmo tempo que pautando o ritmo da indústria como um todo. Filmes de super heróis simplesmente solapam qualquer outro lançamento. Por melhor que seja John Wick – e é bom demais – nenhum outro estúdio vai querer lançar seu novo personagem no cinema no mesmo mês em que estréia Vingadores ou Homem Aranha. O fã delira. E delira tanto que se acha no direito de pautar a indústria que pauta o cinema e a cultura.

Aí o(a) marmanjo(a) cresce e acontece um movimento natural de renovação do público. Como eu disse lá em cima, grana esses grandes estúdios já tem, de modo que o planejamento que eles fazem miram os próximos dez, quinze anos. E o jeito de garantir renda e relevância para a próxima geração é essa mesmo que você deve estar pensando agora: agradar as crianças e jovens adolescentes de hoje em detrimento dos adultos infantilizados, para que essa criança cresça predisposta a consumir seus produtos quando for uma pessoa produtiva e com renda. Não por acaso o traço de She-ra lembra vagamente o traço de Steven Universo.

A gritaria do fã, que revela o pior que um ser humano pode ter – o preconceito – é motivado pela sensação de que sua geração começa a perder espaço e, pecado dos pecados, sua vontade não é mais atendida de imediato.

Se não fosse toda essa besteira e tolice, todo mundo poderia sentar no sofá e assistir tranquilamente Titans que é uma série legal pra caramba, focada no passado de Ravena e Robin, e até dar uma lidinha em Zenão, filósofo grego do século 4 a.C., nos falando que nosso objetivo deveria ser viver de acordo com a natureza, nossa e das coisas a nossa volta, ao invés de fazer como Robin tentando fugir de seu passado, como faz na primeira temporada.

E em tempo, quem me recomendou assistir Titans e escrever e gravar um vídeo sobre, foi minha filha LilithValente ou MoCuishle para os íntimos – que amou o enredo, as cenas de luta, os personagens.

Minha Valente representa bem a próxima geração que está por vir. Uma que ignora essas tolices e se foca no que é importante numa série: uma boa história com bons personagens. Uma geração que sabe que pode amar como e quando quiser, quem bem entender.

Eu sou suspeitíssimo para falar, mas quando deixarmos o mundo para pessoas como minha filha ou meu cunhado João – que tem a mesma idade da minha filha, 12 anos – o mundo ficará bem melhor que essa bola de pus que é hoje.

Um grande beijo a essa geração do porvir e, se possível, leia um pouco mais sobre Zenão. E se quiser saber mais sobre o filósofo grego é só pedir nos comentários que eu prometo um texto sobre ele.

Até mais e não morram.

 

 

 

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