Netflix, o Romero Brito do audiovisual

Ano passado o caso Facebook/Cambridge Analytica expôs ao mundo o modo exato como empresas gigantes de tecnologia fazem dinheiro: com os dados de seus usuários.

Não vou me alongar sobre o caso, mas apenas lembrar que os dados dos usuários do Facebook eram usados de modo ilegal para manipular a opinião pública sobre este e aquele candidato a corrida presidencial norte americana, o que causa prejuízos enormes para o sistema político e para a democracia em si.

Problemas políticos a parte, um dos desafios que se impõe as empresas do setor é o de usar com responsabilidade e ética os dados que coletam de seus usuários. Cada empresa busca uma resposta a essa questão sem que isso interfira em seu modelo de negócios, e minha intuição me diz que ainda vamos ver mais alguns escândalos até que esse problema estabilize.

Com a Netflix não é diferente.

A empresa, que ainda não foi abalada com nenhum escândalo direto (o caso de Kevin Spacey atingiu mais o ator do que a empresa) parece ter encontrado uma forma de viabilizar sua plataforma e modelo de negócios através de um algoritmo que consegue predizer com certo grau de sofisticação aquilo que seus usuários querem ver, lhes recomendando filmes e séries baseado em seu comportamento ao utilizar o aplicativo.

Funciona mais ou menos assim na teoria: se você assistiu muitos filmes do Brad Pitt, ele te recomenda filmes com ele; se você assiste comédias românticas, idem. Mas por trás há algo ainda mais interessante, quando sabemos que os sub gêneros dos filmes seguem um padrão mais ou menos estabelecido. Existem fórmulas para gravar comédias românticas, para filmes de ação, de suspense de terror. São fórmulas porque funcionam sem inovar o gênero.

Daí a brilhante ideia: se eu tenho uma base gigantesca de dados predizendo com certo grau de sucesso o que meu público vai assistir, eu posso, ao invés de comprar direitos desses filmes todos, investir essa grana e CRIAR esses filmes para esse público consumidor. Serão filmes com baixa qualidade? Propositalmente, sim. Serão filmes ignorados por muitos usuários? Sim, novamente. Mas essa é a ideia.

A ideia é que um grande volume de filmes e séries sejam lançado, não para criar uma obra cinematográfica de respeito ou renome. Mas sim para que filmes diferentes agradem nichos diferentes. É mais ou menos por isso que alguns filmes ou séries novos do Netflix agradam demais a você e seus amigos com interesses em comum, enquanto você despreza todo o enorme volume de material produzido. E é essa é estratégia.

É assim porque os dados colhidos pela Netflix conseguem deduzir com bastante previsibilidade o que produzir para que seu negócio gere lucro. Porque é um negócio, lembra?

A Netflix não é exatamente um Leonardo da Vinci do audiovisual. Esta mais para Romero Brito.

Me faz lembrar a diferença entre cultura e arte grega e romana. Enquanto as esculturas gregas possuíam sofisticação quase inimaginável para sua época, exigindo estudos sobre material e proporção para que as suas esculturas praticamente parassem sozinhas em pé, sem nenhuma base de sustentação, o Império Romano transformou o processo de arte grega em pastelaria. E todo mundo sabe que quando aumenta a quantidade, diminui a qualidade.

Entre os prós e os contras está a reflexão de que o conteúdo produzido pela Netflix pode ser considerado um espelho de seu usuário. Se a qualidade das produções tem diminuído em muitos casos – porque é bom lembrar, a empresa está concorrendo a 25 Oscar com algumas produções específicas – é porque ela prevê que é exatamente isso que o seu público deseja.

Me faz lembrar um trecho de uma música do Dance of Days: “Narciso se olhou dentro dos olhos, como se estivesse fora de seu corpo. Nunca se sentiu tão doente.” E o Narciso aqui é você, óbvio. Porque você é o público da Netflix. Eu sei que é confortável pensar que as produções ruins agradam a outras pessoas que não você, mas vou te contar um segredo: a outra pessoa pensa o mesmo de você. E no fim, todos estão certos.

É Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, quem condena com veemência o usuário típico da internet ao sentenciar com ênfase que “hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”. Afinal os dados que a Netflix recebe são dados de graça por nós todos. E assim os macro dados gerenciados por esses conglomerados fornecem ao seu cliente produtos ajustados a medida de sua necessidade, seja um filme, uma série, um notebook, tornando cada vez mais desnecessário qualquer tipo de reflexão mais crítica sobre qualquer coisa.

Para sua sorte você nos encontrou na internet e será cada vez mais forçado a refletir sobre essas coisas todas e com sorte, recuperar um pouco da autonomia necessária para uma vida mais satisfatória.

Até lá, não morra.

 

4 comentários em “Netflix, o Romero Brito do audiovisual

  1. Muito interessante o seu artigo e a reflexão que ele propõe. Ele me fez pensar que, sendo um negócio, o fato de a Netflix produzir conteúdo para seu público médio não é um problema tão agudo como o texto faz parecer. Os grandes estúdios de cinema trabalham assim, a Globo e as outras trabalham assim. É como criticar a cultura de massas por produzir conteúdo para as massas. Contudo, o sucesso do negócio talvez incentive a produzir obras como Roma, ou outras produções em várias partes do mundo, dando emprego a toda cadeia produtiva audiovisual. Como exemplo, mas da área editorial, a editora Cia das Letras faz isso: sempre afirmaram que o best seller vulgar, com venda de 5 mil exemplares, é que possibilita bancar a edição de um filósofo x que venderá 300 cópias.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s