HBO e Bourdieu: capital cultural e desigualdade social

Nosso último texto te convidando a pensar foi sobre a Netflix e seu modelo de negócios. Faz-se muita coisa, com um grau de qualidade variável. Algumas coisas excelentes como Justiceiro e Birdbox e outras sofríveis como… bom muita coisa na Netflix é sofrível.

Mas não nos entenda mal. Não é uma crítica, nós entendemos que se trata de um negócio e ele tem que se pagar. Já com a HBO a coisa é diferente. A empresa existe desde os anos 80, e a partir dos 90, começa a investir em séries originais como  The Larry Sanders Show e Sopranos e então sua imagem de produtora vai sendo construída aos poucos, mas de modo sólido. E de lá pra cá são muitas as séries feitas com qualidade muito acima da média, obtendo reconhecimento entre público e crítica.

Além da Game of Thrones (que ok, já não está mais lá essas coisas), Westworld e True Detctive estão em andamento. Voltando um pouquinho ao passado, nos lembramos de Boardwalk Empire (2010-2014), série criada por ninguém menos que Martin Scorsese e Terence Winter, com uma taxa de aprovação de 91% entre os críticos e 95% entre o público, e Roma (2005-2007) uma das mais caras da sua história, com aprovação de 87% entre os críticos e 95% entre o público, mas infelizmente cancelada por questões relacionadas a audiência. Da pra dizer que Roma é a Sense8 da HBO.

E olhando para o futuro está a estréia de Whatchmen, série baseada na HQ de Alan Moore, seguramente o melhor roteirista de quadrinhos vivo, e provavelmente o melhor de todos os tempos, que vale a pena ficar de olho. Vale lembrar o ódio de Moore contra a DC, Zack Snyder, HBO, Warner, 20th Century Fox e contra qualquer um – pessoa ou empresa – que mexa em suas criações.

De modo que hoje, a HBO, assim como muitas outras produtoras, faz parte do capital cultural de nossa época. E quem nos ajuda a compreender o que é capital cultural é Pierre Bourdieu, sociólogo francês e amigo de Michel Foucault. 

Em suas palavras, capital cultural é um “conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de interreconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos), mas também são unidos por ligações permanentes e úteis” (Bourdieu, 1998, p. 28).

Difícil? Vamos lá então.

O que Bourdieu está afirmando é que algo como HBO ou um idioma estrangeiro é algo como um recurso, semelhante a um minério precioso. São recursos preciosos porque fazem parte de uma rede de relações. Ter um minério precioso se relaciona com seu capital financeiro, e isso é óbvio. Mas saber um idioma se relaciona com você ter um emprego mais bem remunerado. E a HBO? Se relaciona com o modo como nossa sociedade se comunica. Ou você nunca esteve em uma roda de amigos no qual a conversa foi Game of Thrones? Se todos manjam do assunto, ok. Quando alguém não conhece, geralmente – mas não sempre – a pessoa vira piada no grupo. Do tipo: “que mundo você vive?” O mesmo vale para filmes Marvel. Uns anos atrás no Brasil valia para a novela das oito. E você sacou.

O complicado para Bourdieu é que o capital cultural de uma pessoa tem um vinculação forte com o capital de verdade, com grana, e sendo assim, uns terão acesso a mais capital cultural que outros. Ir ao cinema ver filmes custa caro. Curso de inglês, não da pra ser chamado de barato em muitos casos. TV a cabo, idem. E nosso capital cultural acumulado influi diretamente em nossa formação como seres humanos no mundo da vida.

Desnecessário dizer que aqueles com mais acesso terão mais condições de fazer a escalada social do que aqueles que não possuem. Capital cultural interfere positiva ou negativamente, mas não é determinante a longo prazo. Mas em ambientes como a escola ele se torna um problema urgente.

Assim é porque os currículos escolares, no geral, partem do princípio que todos os alunos chegam a escola com os mesmos saberes em níveis aproximadamente iguais. Como os saberes escolares, são eles próprios, capitais culturais importantíssimos, quando o aluno não tem condições de acompanhar as aulas por não ter base anterior, ele acaba não tendo como acumular para si o capital cultural escolar ao qual teve acesso. E isso interferirá diretamente em seu rendimento profissional quando ele for um adulto, contribuindo para o aumento da desigualdade social, que já enorme.

Diante disso, o que a maior parte das escolas e professores fazem? Punem o aluno, o rotulam como atrasado, preguiçoso, bagunceiro. E a roda continua girando e esmagando essa criança ou adolescente.

Sair disso exige um pouco mais de trabalho, mas é possível. O colégio em que eu leciono parte do pressuposto de que alunos diferentes possuem bases diferentes e portanto devemos como escola, olhar para todos estes alunos e lecionar de acordo. É mais difícil, mas o retorno é infinitamente mais compensador.

E o resultado para o aluno são incontáveis. Desde conseguir ter acesso a um emprego melhor até… conseguir compreender toda a complexidade de argumentos presente em Westworld. E aqui voltamos ao ponto de partida, que também é o fim.

Até a próxima e não morram.

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Referências:

A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino, Jean-Claude Passeron e Pierre Bourdieu, Ed. Francisco Alves.

https://novaescola.org.br/conteudo/1826/pierre-bourdieu-o-investigador-da-desigualdade

https://www.infopedia.pt/$capital-cultural

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