O que é arte?

A obra Etnias, do artista Eduardo Kobra com 15 metros de altura e 170 metros de largura foi classificado pelo Guinness como o maior mural feito por uma equipe artística. Para a obra, Kobra e sua equipe usaram 180 baldes de tinta acrílica, 2.800 latas de tinta spray e 7 elevadores e foi feito em 45 dias sendo inaugurado no dia da chegada da Chama Olímpica ao Rio de Janeiro, no dia 4 de agosto de 2016.

De lá para cá muita coisa aconteceu no Brasil e no mundo, incluindo ai um debate violento – e tolo – sobre arte durante a exibição de algumas mostras de arte em São Paulo e Rio Grande do Sul. Obras envolvendo sexualidade e o corpo foram o centro de disputa da discussão e um debate velho ressurgiu com força dentro e fora da internet: afinal, o que é arte? 

Longe de querer esgotar o assunto, mas desejando dar um pitaco sobre o tema, vamos tentar jogar um pouco de luz sobre um assunto que não deveria, mas tornou-se delicado.

Por arte, nós do Cinesofia, compreendemos qualquer manifestação estética produzida com intencionalidade. É um conceito propositalmente simples, amplo e envolve muitos poréns. Vamos a eles.

Sendo arte o que ficou definido acima, colocamos no mesmo balaio balé russo, Renascimento Italiano, arte rupestre, pichação, quadros desenhados por macacos, expressionismo alemão, rap, e qualquer outra manifestação do corpo humano. Obviamente há distinções sobre a dificuldade das técnicas envolvidas para a produção desta ou daquela obra de arte. Poucos – possivelmente ninguém – há de discordar quando se diz que as técnicas necessárias utilizadas por artistas como Sandro Botticelli, Cosimo Roselli, Domenico Ghirlandaio, Pietro Perugino e Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni para pintar teto e paredes da Sacellum Sixtinum – também conhecida como Cappella Sistina, no Vaticano – são muitas vezes mais complexas e difíceis de serem dominadas do que aquelas usadas por um adolescente ao pichar o muro do seu colégio.

Mas em ambos os casos há uma intencionalidade envolvida. Os artistas do renascimento italiano tinham um elaborado e sofisticado projeto artístico e o deixaram gravados nas paredes da capela mais famosa do mundo. O adolescente ao pichar passa pelo mesmo processo: primeiro faz um projeto mental do que irá pichar, então reúne os materiais necessários e então, picha.

Talvez você diga algo como o fato de que pichação seja crime, e sim, de fato é. Mas a arte não obedece a constituição. A arte obedece o artista, a si própria e, quando muito,seu público. Houve um tempo, e não faz tanto tempo assim, em que Kobra seria tratado como criminoso ao invés de artista, por pintar paredes, pois assim o grafite era tratado. O debate sobre arte expandiu o horizonte, nos fez avançar, mesmo quando tristemente lemos notícias de que governos e governantes volta e meia ainda manda apagar grafites espalhados pelas cidades.

Talvez você diga que a pichação, ao contrário da Cappella Sistina, não é bela. Mas a arte não tem a obrigação de ser bela, tem, quando muito, a obrigação de codificar aquilo que o artista deseja expressar.

Aliás, essa ideia de arte bela – ou belas artes, se preferir – é algo que remonta a PlatãoPlotino, ambos filósofos do período antigo, passando por Immanuel Kant. Pensar que a arte só pode ganhar esse nome se for uma cópia exata de algo é um conceito deveras ultrapassado, porque sendo assim, haveria pouco ou nenhum espaço para criação ou inovação no campo artístico. Seria uma linha de produção ad infinitum. Como aliás eram as esculturas gregas e romanas retratando corpos geometricamente harmônicos que possivelmente não eram encontrados no mundo real, mas representavam o corpo ideal do ser humano.

Mas se Platão – que aliás tinha uma rixa gigante com os artistas -, Plotino e Kant pensam arte cada qual a sua maneira, mas os três tendo o conceito de belo e de ideal no horizonte, Nietzsche dá uma guinada neste campo ao dizer que a arte é uma manifestação do corpo. Exclusivamente do corpo se você não esquecer que o cérebro é um órgão tanto quanto um rim o é.

Sendo manifestação do corpo, a arte é inerente a vida humana. Uma manifestação de nossa vontade de poder, de querer, tanto quanto de nossa racionalidade, quando por fim, a ultrapassa, gerando obras que nos tocam, nos fazem sentir coisas como raiva, ódio, tristeza. É interessante perceber que nos casos no qual a arte foi debatida em termos tão rasos no Brasil, faz com que a arte mostre seu valor inestimável.

Por alguns meses o país parou para debater a partir de uma mostra artística, e isso é uma manifestação que ultrapassou – e muito – a intencionalidade inicial do artista, suscitando sentimentos e pensamentos que não estão sobre o controle de ninguém, além daquele que pensa e sente.

Arte é fundamental a vida e nos faz criar conexões com pessoas a nossa volta. Um desenho pode fazer com que eu me comunique com um iraniano ou um russo, mesmo sem saber seu idioma. Não por acaso artes faz parte do campo das linguagens dentro das escolas. E talvez por isso a arte tem sido alvo de críticas vazias de significado bem como de tolices das mais diversas: porque a arte nos conecta e une como seres humanos, em uma época na qual se prioriza muros, xingamentos e ofensas.

Se a arte é um remédio eficaz contra o ódio, contra a violência por nos possibilitar expressar estes sentimentos de uma forma que não ofenda nem magoe, aqueles que buscam ofender e magoar não parecem estar prontos para aceitar um conceito de arte que seja inclusivo e afetivo.

Daí esse retorno a um passado remoto e imaginário no qual a arte tinha dono, expressando um mundo de tinta, sem carne, sem sangue, sem sonhos ou coração.

Para nossa sorte, os tempos andam para frente. Kobra não é multado nem processado, mas premiado e reconhecido. Banski também. A mesma coisa com os Gêmeos e uma infinidade de outros artistas que estão na rua dançando, cantando, pintando, escrevendo poemas… enfim, expressando aquilo do qual seus corpos estão transbordando.

Seja no Louvre, seja no Grajaú; no Museu de Arte Moderna de Nova York ou no Morro dos Prazeres, a arte resiste e existe porque somos humanos e a vida humana sem arte, seria um erro.

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